Alegre Viajante – 1

Nas últimas folhas tenho tocado bastante no tema da gratidão. Uma das manifestações disso é a gratidão por todos aqueles que nos ensinam. E tais pessoas não faltam em nossas vidas, a começar pelos nossos pais, professores primários e todos os que nos ensinam algo até os dias de hoje. Como um tributo a esses que ensinam começo aqui nas Folhas a tradução de uma biografia de um exemplo de professor, aqui apresentada em partes, escrita por Dhammacariya Nyanaloka, amigo e aluno em comum de nosso professor Aggamahapandita Rewata Dhamma Sayadaw. 

 O Alegre Viajante

O começo do jovem Rewata não teve nada de notável. Filho de U Lu Khin e sua esposa Daw Pyant Gyi, ele nasceu no vilarejo de Thamangone, às margens do rio Irrawaddy na Birmânia. Era um garoto cheio de vida, com uma mente inquiridora que o levou a se encrencar por vezes. Na época, era costume uma criança receber uma tatuagem protetora contra mordidas de cobra. Tão logo o jovem recebeu a sua, ele decidiu testá-la apresentando seu pulso convidativamente para a primeira cobra que cruzou seu caminho. Naturalmente ela o mordeu. O mundo quase perdeu um influente professor naquele momento, pois a cobra era venenosa e não havia qualquer médico na cidadezinha de Hanthada. Mas havia um curandeiro nativo que usava mantras e isso surtiu efeito.

Ainda que o distrito de Hanthada fosse predominantemente agrícola, havia um alto grau de alfabetização por lá. Thamangone possuía uma escola primária, estabelecida pelas autoridades imperiais, assim como três monastérios onde as crianças tradicionalmente recebiam sua educação. Rewata nasceu em uma família devota e começou os estudos em um mosteiro com a idade de cinco anos, recebendo a ordenação como noviço quando tinha doze anos. No começo não se aplicou muito aos estudos e não se comportava bem. Depois de um tempo, seu professor reclamou para sua mãe, a qual, ao invés de censurá-lo, comportou-se quieta e tristemente na próxima vez que foi visitá-lo no mosteiro. Envergonhado, ele se tornou o mais diligente dos alunos. Com vinte anos ele recebeu a ordenação completa como monge.

Algumas das coisas que aprendeu não estavam entre os tipos de conquistas que a maioria dos ocidentais associa com um treinamento monástico. Tão deliciosas eram as refeições que ele preparou para um de seus professores que ele era enviado à cozinha sempre que o professor voltava para visitar o mosteiro, mesmo após receber a ordenação completa. Outro desses professores tentou realizar a cerimônia de parar as chuvas, conectada ao culto do Arahant Upagutta. O resultado de suas oferendas e invocações foi uma chuva tão severa que o altar foi arrastado para o rio, para a diversão de seu jovem assistente. Desnecessário dizer, esse episódio não foi relatado no panfleto que mais tarde escreveu sobre o tema para o mosteiro Dhammikarama de Penang.

Por outro lado, aqueles com os quais praticava, de fato atingiram os poderes paranormais que vinham da concentração jhânica. Desejando visitar um amigo monge no hospital, Rewata perguntou a um companheiro se sabia onde o amigo estava. Ele recebeu uma detalhada descrição de como encontrar a cama onde o amigo deitava, mas imediatamente desprezou o relato ao saber que o companheiro não tinha, ele mesmo, ido ao hospital. Seu ceticismo, no entanto, levou um golpe ao descobrir que a cama estava exatamente onde havia sido descrita. Em outra ocasião ele foi convidado para uma reunião da Sangha que devia decidir o que fazer com o corpo de um professor que recentemente havia morrido. Ele se sentou em meio a um silêncio, apenas quebrado pelo barulho dos rosários. Uma hora se passou e ele começou a se perguntar quando a discussão iria começar. Então todos se levantaram. ‘Está decidido então’, ele ouviu dizerem, apesar de que nem uma só palavra havia sido falada.

7 thoughts on “Alegre Viajante – 1

  1. ótimo texto, essas histórias belas são inspiradoras e conseguem explicar internamente coisas que as vezes só as boas histórias são capazes! =D

  2. Parece que foi ontem a primeira vez que ele veio à Minas para um retiro em Caeté… doce, suave, falando de coisas profundas como quem conta histórias para crianças… Aquele retiro foi realmente muito bom!!!

  3. Obrigado pelo incentivo Jorge! Sua presença de fato era de uma tranquilidade que não precisava fazer nada especial para se revelar, aquela equanimidade que vem do passar dos anos com o Dhamma. Não vou demorar, não! Na terça já tem mais um pouco, falando do início de sua vida acadêmica e de como se tornou responsável pelas relíquias do Buddha e na folha seguinte o encontro dele com o Dalai Lama e o 16. Karmapa.

  4. Obrigado! É sempre muito estimulante ouvir ou ler sobre a vida dos grandes professores. Abs. Fátima

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