Alegre Viajante – 8

Jack Kornfield e Joseph Goldstein

Continuação de Alegre Viajante – 7.


Nos Estados Unidos, Dr. Rewata Dhamma tinha vários contatos que o convidaram para lá. Jack Kornfeld e Joseph Goldstein foram discípulos de Mahasi Sayadaw, e ensinavam meditação na costa leste. Na costa oeste havia um monge missionário vindo da Birmânia, o qual o convidava regularmente para Los Angeles. Lá ele dirigia retiros pelo menos uma vez por ano além de palestras ocasionais. Dentre as universidades que ele visitou estavam Columbia, Harvard, Macomb, Champagne e Berkeley. Convites vieram mais tarde também para a América do Sul e Central. Ele dirigiu pela primeira vez um retiro no Brasil em 2000; em 2004 ele foi convidado para as celebrações do quinto aniversário do Centro Theravāda Mexicano.

A partir de 1980 ele assumiu um lugar proeminente na promoção da paz e nos direitos humanos no mundo, atendendo conferências na Rússia, Japão, Taiwan, Tailândia e Austrália, e palestrou em várias seções das Nações Unidas, culminando no Millennium Peace Summit da sede de Nova York. Dentre os departamentos em que foi convidado a participar na capacidade executiva estavam a World Conference for Religion and Peace e a International Network of Engaged Buddhists. Como líder da International Buddhist Peace Mission ele visitou o Cambodia em 1989 e o Sri Lanka em 1990. Quando os protestos contra o regime de Ne Win começaram em Myanmar, a Anistia Internacional lhe pediu para servir como seu conselheiro. Ele também articulou a Burma Peace Foundation com David Arnott a fim de ajudar as vítimas e refugiados dessa agitação e visitou alguns deles no noroeste da Tailândia. Quando a direção da Fundação se virou para a agitação política, ele se afastou de novo. Seu objetivo sempre foi servir o ensinamento do Buddha pela ajuda ao povo, e não acrescentar força para a luta entre ideologias.

Quando passando por Nova York em 1993, o Dr. Rewata Dhamma conversou com Francesc Vendrell, diretor de assuntos políticos para os países do Sudeste Asiático e Pacífico nas Nações Unidas, e sugeriu que, ao invés de demandas confrontadoras, o modo buddhista de fazer as coisas seria o de engajar-se no diálogo com o governo de Myanmar. Vendrell, então, combinou para ele encontros com vários diplomatas para realizar tal tarefa. Para alguém que havia renunciado sua própria cidadania duas vezes, a segunda vez a cidadania britânica, ele não era exatamente o filho favorito de Myanmar. Havia ocasiões em que ele duvidava de que algum dia seria permitido retornar. Ainda assim, um convite do State Sangha Mahanayika Council chegou logo em seguida e em maio de 1994 ele partiu para rever o país que não visitava há mais de trinta anos.

Não foi apenas com seus superiores no monasticismo com quem o Sayadaw conversou. Ele dialogou sobre a situação com diversos ex-políticos e, eventualmente, discutiu com um membro sênior do governo a adequação da libertação de Aung San Suu Kyi de sua prisão domiciliar. Ele não conseguiu um acordo, e ao relatar isso a Francesc Vendrell e a outros diplomatas, foi perguntado a ele porque o Governo nem mesmo dialogava com a líder democrática. Afinal de contas, o Dr. Rewata Dhamma não havia dito que o diálogo era o modo buddhista de negociação? Dessa forma, em agosto, em voou novamente para a pátria que há anos não via para mais uma semana e conversou com seu contato no Governo na tarde de sua chegada. Nenhuma dificuldade foi levantada e lhe foi dada a permissão para visitar Suu Kyi por tanto tempo que desejasse. Seu relato da entrevista foi o seguinte:

Ela me disse que não estava com raiva e acrescentou que ‘quando você mantém raiva e animosidade em sua mente, isso é como manter uma serpente em seu coração, e isso é muito perigoso’. Outra coisa que ela disse foi que não precisava estar livre, pois vivia numa casa muito confortável, mas desejava a liberdade para aqueles detidos prisões espalhadas pelo país. Disse também que se pudesse dialogar com o Governo, então sua liberdade pessoal não precisaria fazer parte do diálogo. Sobre o tema da democracia, ela foi sincera, dizendo que a democracia não era algo que você devesse esmolar a alguém; ao invés disso, era algo que deveria ser construída por si mesmo.

No curso do resto de nossa conversa, ela também disse que devido a seu pai ter sido o fundador do Exército de Myanmar, ela considerava todos os membros do exército como seus irmãos. Em minha mente isso era absolutamente verdade pois foi criada na casa de seu pai, onde o exército e a vida no exército eram a característica dominante, e, dessa forma, era bem fácil entender como que desde tenra idade ela podia considera o exército como sua ‘família’. Depois de ter me contado sobre seus sentimentos sobre o exército, eu disse a ela que mesmo membros do Governo militar a tinham em grande respeito devido aos fortes vínculos com o seu pai e sua família. Assim, quaisquer diferenças e problemas ambos os lados poderiam ser resolvidos como irmãos e irmãs. Ela respondeu que somente o povo de Myanmar poderia entender os problemas de Myanmar e, assim, quaisquer diferenças deveriam ser resolvidas entre nós mesmos”.

Ven. Rewata Dhamma com Sangharakshita e Thich Nhat Hanh

Embora discussões eventualmente tiveram lugar entre os dois lados, Suu Kyi não foi libertada até o verão seguinte. Enquanto isso, o perfil do Dr. Rewata Dhamma estava alto e ele utilizou essa oportunidade para declarar sua visão sobre o político responsável na Asian Leaders Conference em Seoul naquele mês de dezembro. Isso seguiu bem em linha com suas palestras nos anos anterior, com a reclamação de que mesmo em países buddhistas as pessoas estavam mais interessadas nos aspectos rituais e culturais do que em sua fé, e os monges estavam negligenciando o ensino da verdadeira prática, sem a qual não poderia haver estabilidade ou bem-estar social. Concluindo, ele implorou que aqueles na audiência “trabalhassem em seus países pela verdadeira prática do Dhamma e sua aplicação para o genuíno desenvolvimento social. Se os valores humanos centrais da compaixão e amizade amorosa fossem de fato praticados em nossos países, rapidamente encontraríamos uma solução para nossos problemas, e nosso povo não seria sacrificado nos altares da ‘segurança’ ou do ‘desenvolvimento’ econômico”.