Uma base neural para os benefícios da meditação

O treino da meditação da observação vigilante na conscientização da experiência do momento presente, tais como sensações corporais e de respiração, evita a depressão e reduz a angústia com a dor crônica. Em um novo estudo, os cientistas da Brown University propuseram um quadro neurofisiológico para explicar esses benefícios clínicos.

Uma questão de ritmos alfa sensoriais corticais: Repetidos focos locais sensoriais – em uma mão, digamos – desenvolve controle sobre subjacentes mecanismos neurofisiológicos que podem ajudar a controlar a dor crônica ou outros problemas.

PROVIDENCE, R.I. [Brown University] – Por que é que o treino em meditação de vigilância ajuda os pacientes a lidar com a dor crônica e a depressão? Numa recentemente publicada resenha de neurofisiologia, cientistas da Universidade Brown propõem que praticantes de observação vigilante ganham controle avançado sobre os ritmos alfa sensório-corticais que ajudam a regular como o cérebro processa e filtra sensações, incluindo a dor, e memórias como cognições depressivas.

A proposta, baseada em resultados experimentais publicados e numa simulação de computador de rede neuronal validada, deduz a sua estrutura mecânica da íntima conexão na observação vigilante entre a mente e o corpo, já que o treino padronizado da meditação da vigilância começa com um foco muito localizado no corpo e nas sensações da respiração. Este foco sensório localizado e repetido, escrevem os cientistas, acentuam o controle sobre os ritmos alfa localizados no córtex somatosensório primário, onde as sensações de diferentes partes do corpo são “mapeadas” pelo cérebro.

Com efeito, o que os pesquisadores propõem em seu artigo Fronteiras da Neurociências Humana é o de que aprendendo a controlar o foco no momento somático presente, meditantes da observação vigilante desenvolvem um “botão de volume” mais sensível para o controle de ritmos alfa do córtex sensorial localizados e espacialmente específicos. A modulação eficiente de ritmos alfa corticais, por sua vez, permite uma filtragem otimizada da informação sensorial. Os meditantes aprendem não apenas a controlar qualquer sensação corporal a que deem atenção, mas também a regular a atenção de forma que ela não se torne tendenciosa em relação às sensações físicas negativas tal como a dor crômica. O localizado controle pela atenção dos ritmos alfa somatosensóricos torna-se generalizado para melhor regular as tendências em relação a pensamentos negativos internos, como na depressão.

“Achamos que somos o primeiro grupo a propor um mecanismo neurofisiológico subjacente que diretamente conecta a prática da consciência vigilante da respiração e sensações corporais aos tipos de benefícios emocionais e cognitivos que a vigilância confere”, disse a autora principal Catherine Kerr, professora assistente (de pesquisa) de medicina da família na Alpert Medical School e diretora de neurociência translacional para a Iniciativa de Estudos Contemplativos, em Brown.

Medindo a diferença: Estudos magnetoencefalográficos mostram que as pessoas treinadas na observação vigilante têm mudanças mais rápidas e maiores na amplitude de ondas alfa, quando eles mudam o foco.

Fonte: Mike Cohea/Brown University 

Evidência experimental

As experiências que Kerr e os coautores neurocientistas, Stephanie Jones e Christopher Moore, têm publicado apresentam algumas novidades em relação às últimas publicações alguns anos atrás. A equipe usou uma tecnologia de imagem do cérebro chamada magnetoencefalografia (MEG) para mostrar que o ritmo alfa no córtex está correlacionado com a atenção sensorial e que a capacidade de regular as ondas alfa em uma escala de milisegundos é mais distinta em pessoas que tiveram treinamento em atenção vigilante padronizado, do que naqueles que não o tiveram. O trio dirigiram esses experimentos do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, Harvard e no Massachusettes General Hospital antes de chegarem em Brown em 2011.

Em um experimento publicado no Jornal de Neurociência, em 2010, observaram que, quando as pessoas concentraram sua atenção nas sensações da mão esquerda, o “mapa” correspondente para a mão no córtex mostrava uma queda acentuada em amplitude da onda alfa (como se a filtragem fosse reduzida lá). Quando a atenção dos sujeitos passou longe dessa parte do corpo, o ritmo da amplitude alfa no mapa cerebral correspondente voltou (como se o filtro alfa tivesse sido restaurado). Outros grupos de pesquisa têm mostrado que este é o caso de outros tipos de tarefas relacionadas com a atenção inclusive com foco na atenção espacial e memória funcional.

Então, em 2011, no boletim Brain Research, a equipe publicou outro artigo. Eles selecionaram aleatoriamente pessoas que praticaram a observação vigilante durante oito semanas versus um grupo de controle. No MEG eles pediram aos membros de cada grupo para focar sua atenção na sua mão e depois lhes pediram para mudar a sua atenção para o pé. As pessoas com o treino de observação vigilante mostraram mudanças mais rápidas e maiores na amplitude das suas ondas cerebrais alfa no seu mapa mental quando fizeram a mudança de foco de atenção do que as seis pessoas do grupo que não fez treino de observação vigilante.

Modelo computacional da vigilância

Além da evidência experimental emergente, o sistema de pesquisa é também informado por um modelo de computador desenvolvido por Jones para estimular as ondas cerebrais alfa através de interações recíprocas entre o córtex, que processa as informações e os pensamentos, e o tálamo, que é como um operador que medeia o fluxo de informações do resto do cérebro para o córtex. O modelo é bem validado na medida em que produz ritmos alfa que se aproximam bastante daqueles observados em escaneamentos MEG em tempo presente de pessoas reais.

Jones, professor assistente (pesquisa) de neurociência, originalmente não desenvolveu o modelo para auxiliar a pesquisa sobre meditação.

“Estávamos investigando quais são os mecanismos cerebrais que conseguem criar esse proeminente ritmo alfa e mediar seu impacto no processamento sensorial”, ele disse. “O modelo simula a atividade elétrica de redes neurais e faz previsões bem específicas sobre como esse ritmo é gerado. Uma vez que entendamos os processos cerebrais regulando a expressão do ritmo alfa, podemos entender melhor como ele pode ser modulado com a prática da atenção vigilante e por que isso é benéfico”.

Entre as previsões mais importantes é aquela que poderia explicar como obter o controle dos ritmos alfa não só melhora o foco sensorial em uma área específica do corpo, mas também ajuda as pessoas a superar persistentes estímulos concorrentes, como pensamentos depressivos ou sinais de dor crônica.

Para conseguir isso, o modelo prevê que, meditantes devem alcançar o controle adequado sobre o tempo e força dos ritmos alfas gerados a partir de duas regiões distintas do tálamo, chamados núcleos talâmicos, que se comunicam com diferentes partes do córtex. Um gerador alfa governaria o “ajuste interno” local, por exemplo, de sensações em uma mão, enquanto o outro iria reger o mais amplo “ajuste externo” de informações sensoriais ou cognitivas noutro córtex.

É quase como focar um telescópio alinhando precisamente a posição de duas lentes diferentes. A teoria dos autores hipotetiza que meditantes experientes adquirem a habilidade de girar aquele focamento proverbial para alinhar esses diferentes ritmos.

Trabalhando com a teoria

Em um novo artigo, os autores propõem o treinamento de pacientes crônicos no método padrão das técnicas de vigilância e concentração e, então, focando para longe da dor, isso deveria resultar em melhorias no controle do ritmo alfa, com mensuráveis e verificáveis MEG.

“Por este processo de engatar e desengatar repetidamente a dinâmica alfa através do mapa corporal, de acordo com a nossa teoria alfa, os sujeitos estão reaprendendo o processo de modulação direta dos ritmos alfa localizados”, escreveram eles. “Nós supomos que os pacientes com dor crônica treinados em vigilância irão mostrar maior capacidade de modular alfa em um paradigma de atenção tátil antecipatório semelhante ao utilizado em [estudo de 2011]”.

Muitos desses experimentos ainda precisam ser feitos, reconhece Kerr, e seu grupo só pode fazer alguns.

“Existem várias hipóteses neste contexto que podem ser examinadas”, disse Kerr. “Essa é uma das razões porque nós queremos colocar isto fora do contexto. Está além da nossa capacidade testar todas essas ideias. Nós queríamos tornar isso disponível para o campo cientifico e mostrar esta visão unificada”.

Além de Kerr, Jones e Moore, outros autores do artigo são Matthew Sacchet da Universidade de Stanford e Sara Lazar do Hospital Geral de Massachussets.

O grupo de pesquisa tem recebido apoio do Instituto Nacional da Saúde, da Fundação Família Hershey e do Instituto Osher.

Tradução do Grupo de Tradução do Centro de Estudos Buddhistas Nalanda.
O artigo original apareceu em: http://news.brown.edu/pressreleases/2013/02/mindfulness