A Verdade está na cara

Aí no tagboard foi-me perguntado sobre o que achava de uma certa definição de ética proposta em nossa política atual. Absurda, é claro, pois que ética deveria ser algo exercido de antemão, e não algo a ser punido depois que se é descoberto. Isso, claro, quando se pune, coisa que raramente parece ocorrer. A situação política, ou ainda, a consciência política brasileira está de pernas bambas. Desfalecidas.

Em qualquer país sério, o povo já teria saído às ruas diante da corrupção exposta, de tantas CPI e pizzas. Qualquer político honrado, em um outro país, já teria pedido sua própria resignação se um subalterno fosse revelado como tendo cometido crimes ou falcatruas. Nos últimos anos, vimos na Europa vários políticos saindo do governo ou entregando o cargo por muito muito menos.

Não é questão se um governante sabe ou não sobre o que é cometido em seu governo. Como governante, é sua função assumir a responsabilidade, pois foi ele próprio que formou seu governo e confiou cargos. Por muito menos presidentes de grandes empresas e ministros de estado, em outros países, saíram quando aqueles que os cercavam pisavam na bola. O Brasil perdeu uma chance de ouro de mostrar-se honrado. Fica difícil escolher sobre o que é pior, ter um governante conivente que se esconde por trás de seu primeiro escalão, que cai como pau seco no deserto; ou um governante inconsciente do que se passa à sua volta, inocente e ingênuo como um carneiro na matilha de lobos, com a qual ele mesmo brinca há décadas. Porque, no final, é somente disso de que se trata: ingenuidade ignorante ou conivência mascarada. Que outro jeito explicar os últimos anos no Brasil?

Mas o que é realmente triste não é a corrupção na política, mas a passividade ética do povo. O que é triste é achar que isso é normal, aceitável ou mesmo recompensável com um novo mandato. Não importa que tal ou qual adversário, em qualquer cenário, possa ser igual ou mesmo pior. Trata-se de recompensar ou não o que acabou de ser feito. Trata-se de aplaudir, com o voto, a ingenuidade absurdamente inconsciente ou a esperteza mascarada de cordeiro. Temos que aprender a começar a aplaudir a honra, o assumir as próprias responsabilidades, o não aceitar a mentira nem a ignorância. Seja qual for o governante a cada momento, essa mensagem deve ser dada, pois somente assim se aprenderá a fazer direito e não enganar. Temos que aprender a votar nas ações e na ética, e não em partidos, ideologias e imagens fantasiosas de ídolos.

Mas se sempre apenas escolhermos o que achamos menor pior, ou com o qual simpatizamos, a mensagem que será dada é que é aceitável mentir, roubar, distorcer a verdade, ‘porque’ as outras opções não são melhores. Esse é o caminho para que a ética política e a consciência moral de um povo cada vez afundem mais. No mais, deixo aqui o excelente artigo de Jabor, a verdade está na cara.

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

4 Comments

  1. Será que a turma psdb/pfl é mais ética? Pelo histórico de engavetamento geral do período FHC com a devida conivência da mídia, sabemos que não. E o fato de ter havido problemas no pt não faz com que os antecessores sejam bons, não há relação de causa (pt ruim) e efeito (borhausen bom). Pelo contrário, os antecesores não ergueram um dedo pela justiça social e seu discurso pautava-se pela repetição insistente da palavra mercado e da divinização de sua “mão invisível”. Acho que uma redução de 19% na pobreza demonstra um caráter muito mais nobre do que o da elite, que esteve no poder po décadas, talvez séculos.

  2. Olá,
    Não pude deixar de registrar:
    “sem querer provocação […] o sr. Lulla” (com duas letras ‘L’).

    Bem, isso é uma provocação, não é?

    Outra questão: a frase citada é “ética não é saber antes das irregularidades, mas punir depois que se fica sabendo..”.

    Bem, saber antes das irregularidades não é ética mesmo, seria clarividência.

    Saber das irregularidades e não agir seria anti-ético, mas (e isso são fatos) quando se soube das irregularidades os envolvidos foram afastados (em outras épocas, engavetava-se).

    Desculpem-me, mas esta campanha está demasiadamente agressiva. Creio que todos deveriam desarmar os espíritos.

    Como a Ana mesmo disse, “fizeram um grande trabalho de distorção” das coisas ditas.

    Pena. Isso impede uma discussão saudável e necessária sobre as reais necessidades do País. Sobre o papel do Estado. Sobre o significado da palavra “desenvolvimento”. Sobre o processo de elaboração do orçamento da União. Sobre a relação entre Estados e União. Sobre os gargalos de infra-estrutura. Sobre a organização do ensino (Fundamental aos municípios; Médio aos Estados e Universitário à União – tá bom assim? Tem de mudar? Como?). Enfim… sobre tanta coisa. Mas só se fala de dossiês e grafa-se o nome do Lula com dois ‘L’.

    Creio que até mesmo Buddhistas estão demonstrando apego a opiniões que, ao final, são vazias.

    Talvez parar e respirar seja bom.

    Vou fazer isso agora.

    Cordialmente,
    Paulo

  3. … ai…ai…ai, sem querer provocação, mas no primeiro debate
    da Band o Sr. Lulla bradou três vezes a quem realmente quizesse
    ouvir, e eu além de ouvir ainda anotei: … ” ética não é saber antes das irregularidades, mas punir depois que se fica sabendo..”
    não creio que tenha sido só eu a ouvir tal pérola, pois no dia seguinte confirme na grande impresa
    e tbem em vários blogs politicos alternativos, além de vários comentários de pessoas, a grande
    maioria ( por aki) registrou algo
    estranho em relação ao dito da ética, e assinalavam isso. Portanto esse não é um fato isolado, só ouvido e assimilado por mim.Claro que depois do debate os interessados fizeram um grande trabalho de distorção para que os efeitos de tal dito,fossem ” apagados” ou minorizados. Não me causa espanto nenhum, num País sem memória. E me parece que estamos tb perdendo a memória de curto prazo.
    Desculpe a ousadia, talvez o espaço aki não seja o mais indicado,mas enfim… vamos que a fila anda.

    Quero registrar tb que antes de passar por aki, estive lá no blog
    do Tam Huyen Van ( C. M)- é tb passo por lá de vez em qdo e gosto
    de seus ensaios reflexivos.

    Muito interessante o texto;
    ” O zen na consciencia politico-social.”
    meio denso, claro, vou ter que voltar lá ainda mais vezes e reler
    aquilo td.
    mas veja que bacana; de cara aprendi que;…… ” toda unanimidade inconsciente é burra….”, eu que era fã da outra
    frase de NR, acabei de aposenta-lá agora, e adoto essa que a meu ver
    é de uma amplitude e complexidade
    mais abragente qdo se trata dessa
    interlocução Budismo x Cultura.
    Agradeço a oportunidade de ter estado lá antes,e penso que em estilos e metodos diferentes os dois textos fazem pensar.

    abs

    ana

  4. Olá,
    Gosto de seus comentários sobre Buddhismo. Aprendo com eles.
    Mas considero que seu comentário sobre ética distorce um pouco o que foi dito pelo presidnete Lula (afinal, é dele que vc fala, não é?).

    O presidente disse que não poderia impedir que pessoas realizassem atos anti-éticos do mesmo modo que um pai que está na cozinha não pode impedir que um filho na sala quebre um vaso.
    O que o pai pode fazer é, quando descoberta a responsabilidade pela quebra do vaso, punir o culpado. O presidente, quando descoberta a atitude anti-ética, punir os envovlidos. E efetivamente ele fez isso, afastando assessores tão próximos quanto Dirceu ou Palocci.

    Infelizmente vivemos uma campanha muito agressiva, em que órgãos da imprensa possuem um candidato e o defendem veementemente por meio de ataques ao Lula. O Sr. Jabor é um dos jornalistas que desempenha emblemático papel nessa contenda.

    Espero que as coisas se acalmem e que as pessoas que votam em Lula não sejam chamadas de coniventes com o “mentir, roubar, distorcer a verdade” – afinal, há várias outras razões para se votar num candidato que ultrapassam os “partidos, ideologias e imagens fantasiosas de ídolos”, como a defesa de uma determinada visão de Estado e sua atuação na economia e em ações de distribuição de renda, por exemplo, que não são contempladas nas propostas dos adversários.

    Atenciosamente,
    Paulo

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