Ai Meu Deus

É preciso que o Brasil assuma a grandeza que Deus lhe deu quando criou o mundo e que os nossos diplomatas nos deram quando fizeram a divisão do espaço geográfico, no século passado“. É assim que o presidente do espaço geográfico chamado Brasil justificou a “necessidade” do Brasil ser uma potência militar. Ou seja, um discurso bem parecido com o do W. Bush, e que traz “Deus” para justificar qualquer idiotice e interesse financeiro dos governantes. Não é um discurso novo na política do mundo, mas infelizmente não é o último. Em pleno século 21 ainda temos que ouvir argumentos arcaicos como esse. Quer dizer que países pequenos não foram agraciados por “Deus”? Devem se contentar com sua “pequenez”? Num pais de maioria cristã (e o mesmo se poderia falar dos países muçulmanos) trazer à baila política esses argumentos pseudo-teológicos é voto certo. E isso, a que leva, além da hipocrisia evidente?

Leva, entre tantas coisas, à apologia da guerra. Olha só essa: ter uma capacidade militar é a condição “inexorável” para que um país, segundo Lula da Silva, “se transforme em uma potência e seja respeitado no mundo inteiro“. Agora, o que acham vocês? Eu pelo menos consigo pensar numa dúzia de razões pelas quais gostaria de que o Brasil fosse respeitado no mundo. Gostaria de que durante minhas viagens as pessoas quando soubessem que sou brasileiro dissessem: O Brasil não é aquele país onde a felicidade per capita é uma das maiores do mundo? Legal que o Brasil defenda tão bem a Amazônia e nunca matou índio algum, hein? Sempre quis morar no Brasil pois sempre ouço como é um lugar seguro! Que povo trabalhador é o brasileiro, não? Ah, Brasil! Que país em que se lê tanto e a cultura não se resume em dança e cinema sobre bandido e ser esperto. Vocês lêem muito lá, não?

Agora, ser respeitado porque tem capacidade militar? O que é isso? Faroeste? Meu revólver é maior que o seu, portanto me respeite, Billy Jean!

Agora juntemos as duas afirmativas: “Me respeitem, porque meu revólver é maior que o seu e foi Deus quem me deu!” Ora ora…

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

3 Comments

  1. Muita lucidez nesse seu argumento.
    Concordo com êle, mas não vejo luz no final desse túnel, porque esse é longo e parece não ter saída.

    Gasshô.
    Rosana.

  2. …um problema é que imaginar alguém que faça um discurso diferente desse do Lula, diferente em essência, veja bem, é quase que um delírio utópico nos dias de hoje…

Comments are closed.