bananas e macacos

Quando o Buddha fala de nosso problema com o apego e dos problemas que ele nos causa, geralmente interpretamos como se tivéssemos que abandonar tudo e que isso seria a “vida buddhista”. Aqui precisamos fazer uma distinção entre uso e apego. Abandonar o apego não significa que deixemos de usar. Também não significa que deixamos de ver a utilidade e valor de algo. Por ex. eu posso abandonar o apego ao tomar banho. O que isso quer dizer? Que se um dia eu chegar em casa e não tiver água, poderei passar um dia sem tomar e não sofrerei. Ou se não tiver eletricidade poderei tomar banho frio. Apego é o agarrar que gera sofrimento. É o sofrimento, para mim e para o outro, que define e molda o uso, transformando-o em mais alguma coisa para se agarrar e sofrer. Porém, pelo fato de eu não ter mais apego a banho (ou seja, não projeto minhas preferências e gostos pessoais naquilo que uso, tornando gostos e preferências essenciais para minha felicidade), isso não significa que deixarei de usar ou mesmo que não veja o imenso valor dele. O mesmo se aplica a qualquer outra coisa que toquemos com nossos sentidos e mente.

Uma outra área em que o apego nos aprisiona é na formação de hábitos. Beckett em ‘Esperando por Godot” já dizia que ‘habit is a great deadener‘. Hábitos são comportamentos que por algum motivo se tornaram ‘confortáveis’, dos quais derivamos algum prazer deles e, por vezes, tememos fazer diferente, sair da rotina. O hábito tem também o poder de prender e nos impedir de aprender. Ficamos aprisionados no seguir pelos mesmos caminhos, pensar segundo os mesmos parâmetros, ver e viver como fazíamos 20 anos atrás. Não é interessante que ‘aprender’ é ‘prender’ somado do prefixo pali de negação ‘a’? Ou seja, não prender é aprender.

Enfim, mesmo velhos, ainda podemos aprender alguns truques de nossos amigos macacos e depois de tanto tempo aprender como descascar bananas corretamente! O que você soltará hoje? O que aprenderá de novo?

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

4 Comments

  1. Realmente… é incrível a forma como nos apegamos aos hábitos!
    Porque nunca nos ocorreria abrir uma banana assim?
    Temos mesmo tanto a aprender com os animais!

  2. Rá!

    Este é o tipo de coisa que você vê uma vez e nunca, nunca mais esquece. Creio que amanhã já estarei descascando bananas como um macaco.

    É um grande prazer ler o teu blogue.

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