Culto ao prazer

Uma das características das formas tradicionais de Buddhismo é uma desconfiança básica quanto à nossa relação com o prazer. Simplesmente não sabemos lidar com ele, e, na verdade, raramente conseguimos não nos manter viciados em suas várias formas. Isso não é um problema atual, mas faz parte da história da humanidade; porém nos últimos séculos tem se tornado não apenas um vício, mas algo incentivado, aceito, idolatrado.

Se na história antiga de todos os povos, geralmente influenciados por ensinamentos religiosos e éticos, ainda havia uma ênfase na importância da moderação, da vergonha moral, da vida simples que seguia o caminho do meio, hoje, pelo contrário, as principais forças sociais e econômicas se nutrem da força do desejo. A publicidade e o comércio não existiram na forma que existem hoje, senão pelo culto ao ‘mais e mais belo e mais potente…’; companhias fazem ações sociais não pelo bem que se quer fazer, mas pelo desconto que terão no imposto de renda; políticos não mostram ou comentam o que fizeram, mas o que farão no futuro (baseando-se então nas expectativas do povo, e não na realidade como suas plataformas), isso em meio a showmícios, festas e compras de votos (ó! será que isso ainda ocorre no Brasil?…); a cultura cada vez mais valoriza a pessoa sem barreiras morais, e liberdade se tornou não mais o ideal interior da pessoa superior mas o seguir sem rédeas toda e qualquer vontade dos sentidos.

Não é a toa que o Buddhismo não seja popular atualmente. Opss! Mas o Buddhismo É cada vez mais popular! E isso deveria nos fazer pensar, não? Como os ‘budismos’ que se tornam populares o fazem nessa cultura atual? Que exceções, meio-termos e omissões precisam efetivar para que sejam aceitos na cultura? Quanto devem omitir dos ensinamentos do Buddha para quem sejam consumidos, pessoas apareçam e sejam considerados legais? ‘Ser budista’ está na moda, não?

E junto com o vício no prazer vem o culto à personalidade, dentro e fora do ‘budismo’, ao indivíduo que aparece, se mostra, se destaca. Não é de se surpreender com a perplexidade e mesmo desapontamento que alguns têm quando expostos a ensinamentos do Buddha, pelos menos aqueles ensinados por ele… Continuando com as homenagens aos cem anos de aniversário de Tan Ajahn Buddhadasa, seguimos, na seção de ‘Tributos’, à procura daquele esquivo senso de desapego…

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

8 Comments

  1. Isso de “deveria existir tantas religiões, qto os tipos de disposições mentais” deve ser visto com bastante cuidado, pois superficialmente dá a impressão que então qqr “religião” (ou que se denomine tal, serve, o que absolutamente não é o que o Buddha pensava (qto ao DL não sei).

    Agora, concessão na ‘história pessoal’ é algo muito relativo, devido à própria insubstancialidade da ‘história pessoal’ e da ‘pessoa’. Já concessão no campo doutrinal/religioso implica em quanto se pode ‘dobrar’ os ensinamentos legítimos sem distorcê-los e adulterá-los.

  2. ….
    e nós homens/mulheres de boa vontade; que concessões( na nossa história pessoal, formação e valores) devemos fazer para que
    inclusão/pertencimento a um grupo
    dito budista seja efetiva?

  3. essa vai em doses homeopáticas, já
    vinha refletindo um bocado pensando
    na minha experiencia enqto “avulsa”
    nesses quase vinte anos de peregrinação, entre idas e vindas.
    Recentemente vc postou creio eu, um poema de AB – em que a reflexão era Budismo é prazer ou dever? penso que deve-se começar por ai…
    Mas tem tantas questões envolvidas, bem como lembrou vc, a questão do prazer, não pude pensar
    no velho Freud …rsrs impossivel
    isso me remeteu a teoria do principio de prazerX realidade… rsr e muitos ficam presos ai, e fico me perguntando, é possivel
    ter uma prática séria, profunda, com foco no dever, se em nossa formatação/condicionamento como queira, a balança pende mais para
    o lado do prazer?
    Num dos seus livros, DL diz algo
    que acho muito sério: que ó Budismo
    não é prá todo mundo, que deveria
    sim existir tantas religiões, qto
    os tipos de disposições mentais.
    Creio que a questão prazer/budismo
    passa um pouco por ai…
    Vou dar um tempo, mas volto… ah!
    pg se vc se lembrar post o link de
    AB sobre isso prá mim, fico agradecida.
    ana

  4. Não poderia ter encontrado uma análise mais precisa do que tenho encontrado por aí. Me aproximei do budismo supondo que não existiria o “oba-oba” que se vê em outras religiões transformadas em show ou que, para se tornarem populares, fazem concessões inconciliáveis com os mesmos princípios que pregam. E, infelizmente, em certos ambientes budistas, se pode encontrar a a mesma coisa… mas nem tudo está perdido… está?

  5. concordo contigo, pipocam casos pelo mundo todo via net.
    o que chocou, foi que esse caso é no nosso quintal, bem alí..
    tem tb a questão do suicidio assistido( ou teve ajuda, ou foi pressionado) perceba a intensidade
    da angustia desse jovem, alguém que pede pelo amor de Deus…sei não.
    outra questão que me salta aos olhos se observamos os detalhes do texto.
    local: banheiro( onde temos alguns do nossos sagrados rituais, um espaço privado, bem isso é um papo longo, que não cabe agora)
    ritual: me parecia que ele estava sendo orientado em algum ritual, veja o detalhe do ” fogo”.
    houve um momento, que me parece que
    ele estava no limite, e pede ajuda
    na questão da vestimenta. lembrei dos tais jogos virtuais em que as coisas acontecem ” como se” fosse real.
    E esses jovens participantes, não
    avaliaram as conseq. éticas e morais disso? que valores orientavam as escolhas e ações do grupo?
    Sei não, em sendo o caso divulgado, se a moda pega…..???

  6. Obrigado por compartilhar, Ana. Apesar de lamentável a notícia, isso já é algo comum no Japão, por exemplo, onde suícidios via internet e suicídios coletivos combinados via SMS fazem parte do dia a dia. É um sinal da desesperança que assola jovens e adultos de nossos tempos. Fiquei com a pergunta: ‘É necessário uma canadense para avisar que um jovem vai morrer no Brasil? Não havia brasileiros no grupo?’

  7. deixo meus questionamentos para outra oportunidade.
    veja isto;
    http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI1093023-EI306,00.html

    ” …o sentido da vida não se improvisa,o valor da vida não se compra pronto….”
    Jurandir Freire Costa, in: Mortes a crédito – no site do autor.

    tudo a ver com esse excesso de prazer…
    ana

  8. otima essa linkada geral, vixe existe isso? se não acabei de criar
    rs… tá parecendo o imexivel do Magri heheh.
    Li de orelhada, to saindo..
    Tu me parece bastante pontual nessa
    questão ai, qual a sua fonte? onde
    andas a observar? … volto
    abs ana

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