Da solidez das formas

Na última folha foi falado da suposta concretude da matéria, e como a meditação pode servir de instrumento de desafio dessa concepção. Algumas formas de meditação são mais diretas como instrumento, como a que fazemos em relação aos quatro dhātus, enquanto outras são mais indiretas. Enquanto rūpa for tomada como essencialmente sólida, haverá sempre uma falsa atribuição em relação a mente e corpo. Como diz Ajahn Sucitto: “As pessoas que buscam pela liberdade dentro de si mesmas sempre se dirigem à mente, à consciência, ao coração ou à alma. Esses são alguns dos termos que são usados – mas, enquanto houver o não-saber, somente teremos uma idéia parcial do que coração, alma ou mente de fato são…Essa forma de ver as coisas certamente nos dá algo para trabalhar em termos de nos tornarmos mais conscientes de nossos processos psicológicos e emocionais, mas leva a uma idéia de que se é uma entidade que mora separada de todo o resto. Ela traz uma incerteza em termos de como relacionar essa mente com tudo o mais que está separado dela. O efeito dualístico continua: a mente está dentro do corpo; assim, a mente está separada deste corpo “.

Então, um dos objetivos da meditação é quebrar a idéia da solidez, mas não em nível teórico, mas experiencial. É um tanto desapontador, entretanto, o quão pouco o próprio Buddhismo moderno faz uso disso, preferenciando formas mais simplistas de meditação. Uma hipótese é que isso se deve à meditação ser vista hoje, mesmo dentro do Buddhismo, mais como uma forma de tranquilização (e relaxamento) do que como instrumento de investigação. Isso faz com que ela vá tão longe quanto as próprias expectativas e concepção que aqueles que a usam têm dela.

Foto: formas etéreas © Dhanapala, 2008

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

3 Comments

  1. É Jorge e Daniel parece que qdo se vê com clareza não pecisa julgar, apenas ver, assim julgamentos comparativos como os nossos vem do ego, e o final das impurezas seria repleto de sukha que não seria uma simples felicidade mas um estado onde se sente um bem estar muito grande, e o dukkha impessoal … apenas comentários, falar do substrato da matéria … filosofando abçs a todos

  2. Concordo com o Jorge.
    E gostaria de comentar outra parte deste texto: “Buscar a liberdade dentro de si é se dirigir ào coração; mas, enquanto houver o não-saber, somente teremos uma idéia parcial do que coração, alma ou mente de fato são…”
    Para mim isto torna mais clara a idéia de que o egoísmo provém do não-saber: enquanto não sabemos, buscamos a libertação na “solidez da matéria” ou seja, fora de nós.
    Ei, o que são os quatro dhātus?
    🙂
    Um abraço,
    Daniel

  3. Concordo em absoluto. É muito difundida a idéia da “paz”, “tranqüilidade”, e por aí a fora… mas a questão desde sempre focada pelo Buddha, a do conhecimento, do despertar, fica meio de lado… Dá a impressão de que o Buddhismo seja mais uma questão de viver bem neste mundo ao invés de despertar deste mundo…

Comments are closed.