Dando nomes para os Buddhas

A crença gradualmente crescente de que Sakyamuni não foi o único Buddha existente no momento presente, mas que Buddhas existiam por todos os cantos, milhares e milhões deles em inumeráveis reinos, foi determinante para alguns desenvolvimentos da história do Buddhismo.

Com o tempo, quem sabe como uma forma de trazer para ainda mais perto essa conexão inefável, alguns dessa miríade de Buddhas, inicialmente anônimos, receberam nomes próprios, e passaram gradualmente a ser cultuados pelo povo. Por volta do primeiro século d.C. ou um pouco antes, nomes como Akṣobhya, Bhaiṣajyaguru e Amitābha começam a aparecer no cenário espiritual da Índia. Tais Buddhas especiais tinham também ‘terras puras’ em que o devoto poderia renascer dependendo da realização de práticas associadas a esses Buddhas, que incluíam principalmente visualizações (daquele Buddha em particular e sua ‘terra abençoada’) e recitações de mantras associados a eles. Alguns os chamam de Buddhas celestiais, devido ao fato de não serem como Sakyamuni, dotados de uma história de nascimento, vida e morte.

Ainda que não se tenha conhecimento certo de cultos específicos a esses Buddhas no solo indiano, a ponto de constituírem práticas e escolas exclusivas, com a expansão do Buddhismo na China a partir do 2º. Século d.C., esses Buddhas e suas ‘terras abençoadas’ tiveram uma crescente aceitação por parte do povo chinês, congregando adeptos exclusivos a ponto de fazer surgir, pela primeira vez, escolas ou linhagens independentes de transmissão de ensinamentos sobre esses Buddhas.

A nomeação dos Buddhas, a existência de ‘terras búddhicas’ produzidas por seus méritos e os caminhos de prática para chegar a elas constitui o tripé da nova prática, a qual imita de certa forma o caminho do próprio Buddha Sakyamuni. Assim como Sakyamuni, por seus méritos, chegou ao Nirvāṇa e revelou o caminho para ele por meio de técnicas e ensinamentos, os outros Buddhas também propunham agora caminhos para o aspirante espiritual. Tais ‘terras búddhicas’, porém, não substituem totalmente o Nirvāṇa. Elas são propostas como “lugares” temporários de parada, onde as melhores condições estão presentes para que o aspirante a partir de lá possa efetivamente chegar ao objetivo final do Nirvāṇa. Isso permite que os novos Buddhas e suas “terras” possam se encaixar no esquema antigo divulgado pelo cânone original.

Também o caminho para se chegar às ‘terras búddhicas’ não ignora o caminho antigo proposto por Sakyamuni. Seu ensinamento fundamental com as Quatro Nobres Verdades, o Caminho Óctuplo e a importância de conduta moral permanecem inalterados, mas são acrescidos elementos de devoção e culto aos Buddhas que estão por toda a parte ou àquele Buddha específico que o aspirante escolheu. As técnicas de meditação vipassanā são diminuídas (talvez por serem mais difíceis e demandarem mais tempo e dedicação) e as de samatha são incentivadas visando especificamente a concentração necessária para as visualizações e recitações ligadas àquele Buddha. A conexão afetiva com o Buddha é estimulada, da qual depende o sucesso do engajamento do aspirante naquele caminho.

~ Dhanapala

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Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.