budismo

Della Santina & Thich Man Giac

Na última semana, o Buddhismo perdeu dois nomes significativos. Dr. Peter Della Santina, conhecido escritor e praticante buddhista, faleceu repentinamente no dia 14 de outubro, enquanto ministrava um curso sobre o Buddhismo Mahayana. Americano de origem, Della Santina atuou por anos na divulgação do Dharma, principalmente no oriente. Foi coordenador do projeto de estudos buddhistas no ministério da educação de Cingapura, senior fellow do Indian Institute of Advanced Study em Simla na Índia, e ensinou Filosofia no Fo Kuang Shan Academy of Chinese Buddhism, em Kaoh-shiung, Taiwan. Dr. Santina foi aluno de Sakya Trizin, líder da Ordem Sakya do Buddhismo Tibetano, tendo publicado vários livros, entre eles o bastante conhecido “Árvore da Iluminação: Uma Introdução às Principais Tradições do Buddhismo”.

Um dia antes foi a vez de Thich Man Giac, Supremo Patriarca da Vietnamese United Buddhist Churches of America, passar desse mundo. Em 1977, ele foi uma dos 79 vietnamitas a fugir de barco do regime bárbaro instalado no Vietnam. Depois de oito dias no mar, o grupo aportou na Malásia, de onde foi ajudado por Thich Nhat Hanh a se mudar para Paris. Incansável ativista pela paz desde a guerra do Vietnam, ele foi apontado como abade do templo buddhista vietnamita de Los Angeles em 1978, fundado por Thich Thien-An.

Morei no outro centro fundado pelo venerável Thien-An, o International Buddhist Meditation Center em Los Angeles, tendo estudado com uma de suas discípulas, a reverenda Karuna Dharma. Na ocasião, tive a oportunidade de assistir algumas aulas com Thich Man Giac, e ter uma conversa em particular. O templo vietnamita em Los Angeles é uma grande estrutura que presta muitos serviços à comunidade vietnamita, especialmente aos refugiados. Além de servir como abade do templo, o venerável Man Giac ajudava na relocação das famílias, escrevia textos e poemas.

Para mim, o Buddhismo vietnamita sempre foi fascinante por sua mescla de ensinamentos Theravada e Mahayana. O Vietnam foi o único país onde esses dois tipos de ensinamentos tiveram uma forte influência. Mais ainda, o Ch´an/Zen japonês, o buddhismo tibetano e a tradição da Terra Pura também estão presentes no Vietnam.

Thich Man Giac dizia que isso era muito interessante e que pela manhã nos mosteiros sempre havia uma sessão de meditação sentada (zazen), seguida por uma longa sessão de cânticos de mantras, no estilo tibetano. E, é claro, o ensinamento sobre a Terra Pura também era muito presente, como, aliás, acontece em todo o extremo oriente. Isso coloca o buddhismo vietnamita numa posição excepcional, pois consegue combinar harmonicamente todas as principais tradições buddhistas. Não se trata aqui de uma combinação feita a partir da montagem de pedaços esparsos, mas de uma verdadeira mescla, nascida organicamente. No primeiro retiro buddhista vietnamita que participei em Los Angeles percebi de imediato a diferença com o zen japonês. Ao contrário da maior rigidez e disciplinada precisão deste, o retiro corria ‘naturalmente’, meditações sentada, andando e cânticos se combinando organicamente com refeições conscientes e palestras de dharma.

O venerável Man Giac dizia que uma das caracterísitcas dos monges vietnamitas era a de que todos se davam bem com a poesia. Assim, deixo aqui uma passagem que ele escreveu no livro que me deu:

Mil anos atrás no Vietnam, houve um mestre buddhista chamado Man Giac, e mil anos depois eu nasci e me deram seu nome. Ele era um poeta, e eu também gosto de fazer poesia. Um de seus famosos poemas falava sobre o ir e vir das estações. Quando a primavera chega todas as flores se abrem, e quando a primavera parte, todas as flores se vão. É como a vida de uma pessoa – quando você é jovem, você têm cabelo negro; quando você envelhece os cabelos brancos aparecem. Quando a primavera termina, nada resta, mas sempre há algo que permanece, algo que não é sujeito à lei da impermanência. Isso é o que ele disse: ‘Ainda assim, não pense que quando termina a primavera nada resta. Na noite passada, em frente ao jardim, um ramo de ameixeira brilhava na escuridão’“.

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One comment

  • Anonymous
    24/10/2006 - 6:19 am | Permalink

    Hummmmm
    Bom ouvir ops ler essas histórias
    do Budismo no mundo e seus persona
    gens marcantes.
    O que é melhor vem sempre com um
    ensinamento/reflexão.

    ana

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