Disputas e tolerância

As passagens escriturais a seguir, traduzidas pela equipe de tradução do Nalanda, tratam de como se comportar diante de disputas, críticas e acusações, e incluem a famosa parábola dos cegos e do elefante.

Conselho do Buddha a seus discípulos sobre como reagir a críticas e acusações

Esta passagem aconselha que se tenha calma avaliação em relação a qualquer crítica ou elogio dirigidos ao Buddha, ao Dhamma ou à Sangha (comunidade buddhista).

“Monges, se outros falarem com desprezo sobre mim, o Dhamma, ou a Sangha, vocês não devem levar a mal, ou se tornarem infelizes, ou se sentirem com a mente deprimida. Se vocês, em seguida, se sentirem irritados e descontentes, poderá ser um perigo para vocês mesmos. Se outros falam com desprezo sobre mim, o Dhamma ou a Sangha, e vocês, em seguida, se sentirem com raiva e descontentes, vocês serão capazes de saber se o que os outros têm falado foi bem falado ou mal falado?” “Isso não seria assim, senhor”. “Mas quando outros falam com desprezo sobre mim, ou o Dhamma, ou a Sangha, vocês devem desvendar o que está contrário aos fatos e contrário à verdade, salientando que ‘isto não está de acordo com verdade, não é assim, esta (falha) não é encontrada em nós’”.

“Monges, se outros falarem em me louvor, em louvor do Dhamma, em louvor da Sangha, então vocês não devem se sentir muito contentes, felizes, ou com a mente exultante… Isso seria prejudicial a vocês mesmos. Quando outros falam em meu louvor, ou do Dhamma, ou do Sangha, vocês devem reconhecer o que é factual como factual, dizendo: ‘Isto está de acordo com a verdade, é assim, esta (qualidade) é encontrada em nós’”.

Brahma-jāla Sutta: Dīgha-nikāya I.2–3, trad. P.D.P.

 

A origem causal das disputas

Nesta passagem, o Buddha diz que ele disputa com ninguém (cf. *M.19), e as disputas surgem devido a conceitos fixos que nascem da maneira como alguém processa e elabora mentalmente aquilo que percebe.

O sākya Daṇḍapāṇi … aproximou-se de onde o Bem-Aventurado estava sentado, trocaram cumprimentos amistosos, e ficaram de lado apoiados sobre um cajado. Ele disse então: “Qual a teoria que o renunciante sustenta e qual ele expande?”

“A teoria que eu sustento é tal que no caso de um brāhmaṇa (como eu mesmo) [183] vivendo sem ser aprisionado por desejos sensoriais, livre da perplexidade, com as preocupações eliminadas, com o desejo sedento por vários tipos de existência abandonado, e para quem as concepções [184] não jazem latentes, permanece sem disputar com ninguém neste mundo formado de deidades, māras, brahmās, renunciantes, brāhmaṇa, divindades e humanos. Irmão, eu sustento tal teoria, e por isso eu a propago”.

Quando isto foi dito, o sākya Daṇḍapāṇi balançou sua cabeça, colocou a língua para fora e, mostrando três bifurcações (semelhantes a vincos) em sua testa, saiu apoiado no seu cajado. …

… [Mais tarde, o Buddha reportou essa conversa para alguns dos seus monges.] Então, um determinado monge disse para o Bem-Aventurado: “Sustentando qual teoria o Bem-Aventurado permanece sem disputar com ninguém neste mundo que consiste de deidades, māras, brahmās … e como, senhor, essas concepções não permanecem latentes no Bem-Aventurado que vive sem ser aprisionado por desejos sensoriais…?”

O Bem-Aventurado disse: “Monge, quando em qualquer medida avaliações em termos de obsessão conceitual [185] inundam uma pessoa, se (para ela) não há nada nisso em que se deleitar, nada para dar boas-vindas, nada para separar, então isso por si mesmo é o fim das tendências latentes para o apego, aversão, crenças dogmáticas, dúvida, presunção, do apego aos modos de ser, ignorância, o fim da tendência latente de pegar bastões e armas, de brigas, disputas, acusações, calúnias e mentiras. Aqui, todos esses estados danosos e prejudiciais cessam sem deixar rastros”.

O Bem-Aventurado disse isso, e se levantando de seu assento entrou no monastério. Logo após o Bem-Aventurado ter ido ao monastério, isso ocorreu aos monges: “O Bem-Aventurado explicou o ensinamento resumidamente para nós e saiu sem explicar o significado detalhadamente … O Venerável Mahā-kaccāna é capaz de nos explicar em detalhes”. Então, os monges se aproximaram do Venerável Mahā-kaccāna e lhe pediram: “Venerável Mahā-kaccāna, por favor, explique isso”.

O Venerável Mahā-kaccāna explicou a seguir: “Amigos, por causa dos olhos e das formas visíveis, consciência visual surge. O encontro dos três é o contato (sensorial). Por causa do contato, a sensação surge. O que é sentido é conceitualizado, e o que é conceitualizado se pensa a respeito. Considerando o que foi pensado, alguém se engaja na proliferação obsessiva dos pensamentos. Por causa disso, a avaliação em termos da obsessão conceitual inunda uma pessoa com relação a formas passadas, futuras e presentes que são discerníveis pelo sentido visual. [O mesmo, então, se repete com relação à interação que se dá entre as outras faculdades sensoriais e seus estímulos correspondentes; isso inclui a mente e os objetos mentais]”.

Madhupiṇḍika Sutta: Majjhima-nikāya I.108–112, trad. P.D.P.

 

Como surgem as brigas

Esta passagem enfatiza como o apego às posses leva a brigas.

Agora, neste caso, Ānanda, o desejo sedento depende da sensação; a busca depende do desejo sedento; o ganho depende da busca; decidir (o que fazer com o que foi adquirido) depende do ganho; desejo e apego dependem de decidir; apego excessivo depende do desejo e do apego; ganância depende do excessivo apego; avareza depende da ganância; protecionismo depende da avareza; e por causa do protecionismo vários fenômenos ruins e prejudiciais passam a existir, como o acesso de porretes e de armas afiadas, lutas, brigas, disputas, acusações, calúnias e mentiras.

Mahā-nidana Sutta: Dīgha-Nikāya II.59, trad. P.D.P.

 

O apego dogmático a opiniões como uma fonte de disputas

Os seguintes versos vêm de quatro discursos de uma seção do Sutta-nipāta chamada Aṭṭhaka-vagga. Esta seção é de um dos primeiros textos buddhistas, como mostrado pela sua citação em vários outros textos antigos. Ele particularmente enfatiza o não-apego a ideias e opiniões.

Alguns falam com uma mente má, enquanto outros falam motivados pela verdade. Um sábio não entra em uma disputa que surgiu. Portanto, em nenhum lugar tem ele uma obstrução.

Como alguém poderia ir além de uma perspectiva dogmática [186] própria que ele tenha celebrado com desejo e preferência? Ele falaria de acordo com o seu entendimento.

Para quem quer que tenha pontos de vista dogmáticos estimados, mas impuros, alcançados pela especulação e construídos da mesma maneira, tudo o que ele vê como vantajoso para si mesmo, apegando-se a ele, há (para ele) uma calma dependente do que é instável.

Para alguém purificado, nenhum ponto de vista com base na especulação pode ser encontrado no que diz respeito às diferentes formas de existência. Tendo abandonado tanto a hipocrisia como o orgulho, pelo que ele seria levado (para o ciclo de renascimento)? Pois, desapegado é ele.

Aquele que está apegado entra em disputas sobre teorias. Por que e por conta do que alguém iria afirmar (uma teoria) quando se está desapegado? Ele não tem nada a que se segurar ou a abandonar. Aqui mesmo ele purificou todos os pontos de vista dogmáticos.

Eles dizem: “Só isso é puro, não há pureza em outras doutrinas”. Falando sobre a excelência de tudo o que eles estão apegados, eles estão separadamente estabelecidos em verdades individuais [187].

Tendo entrado na multidão desejando uma disputa, eles chamam um ao outro de tolo. Eles se empenham em tagarelice contenciosa agarrando-se a opiniões diversas, desejando aplausos, autodenominando-se de pessoas habilidosas.

Aqueles que se imaginam como sendo iguais, superiores ou inferiores, por causa disso vêm disputar. Para aqueles que não se movem por esses três modos, (o pensamento) “eu sou igual ou superior”, não ocorre.

O que o brāmaṇa diria que é a verdade? Ou com base em quê valor disputaria ele dizendo: “Isto é falso”? Aqueles para quem não há (o senso de) ser igual ou desigual, baseado em quê disputariam?

Para aquele que é desapegado de percepções (fixas) não há amarras. Para aquele que está livre por meio do insight não há ilusões. Quem quer que se agarre a percepções fixas ou a pontos de vista dogmáticos, esses vagueiam no mundo em busca de disputas.

Apegados a suas próprias visões, os habilidosos (especialistas) vêm disputar e afirmam diversas teorias. “Aquele que sabe consequentemente entende a doutrina, e aqueles que insultam isto são imperfeitos” (dizem eles).

Desta maneira também eles querelam e debatem, e dizem que a outra pessoa é um tolo sem habilidades. Qual dentre elas é a verdadeira teoria? Todos eles falam como pessoas habilidosas.

If one who is not agreeing with another person’s doctrine becomes a fool, a beast, and one of inferior wisdom, then really all are fools and of much inferior wisdom. For, all of them cling to dogmatic views.

Se alguém que não está concordando com a doutrina da outra pessoa se torna um tolo, uma besta e uma pessoa de sabedoria inferior, então todos, na verdade, são tolos e de uma sabedoria muito inferior. Porque todos eles agarram-se a visões dogmáticas.

Se, em virtude de sua própria perspectiva alguns se tornam puros, ou de purificado insight, hábeis e conhecedores, então a nenhum deles falta sabedoria. Pois eles também são possuidores de perspectivas conclusivamente apreendidas.

Ainda assim, eu não digo que o que os tolos declaram separadamente entre eles é a realidade. Cada um deles faz, da sua própria perspectiva dogmática, verdade. É por isso que eles consideram um outro como tolo.

O que alguns dizem é verdadeiro ou real, o que outros dizem é inferior e falso. Dessa maneira também eles brigam e disputam. Portanto, renunciantes não declaram uma verdade uniforme.

Existe uma verdade, e não há uma segunda em relação à qual (uma verdade) as pessoas que a entendem não entram em disputa. Renunciantes, por sua vez, estimam diversas verdades. É por isso que eles não declaram uma verdade uniforme [188].

Porque, na verdade, os que afirmam ser hábeis, aqueles que propõem teorias, falam de diversas verdades? É realmente o caso que existam muitas e diversas verdades? Ou é o caso que eles estejam apenas seguindo o curso de sua lógica raciocinada?

Certamente não há muitas e diversas verdades eternas no mundo à parte de interpretações perceptivas [189]. Eles se engajam em raciocínio especulativo em relação a perspectivas dogmáticas e declaram de dois ensinamentos: “verdadeiro” e “falso”.

Duṭṭhaṭṭhaka, Pasūra, Māgandhiya e Cūḷa-viyūha Suttas: Sutta-nipāta 780–787, 824–825, 842–847, 878–886, trad. P.D.P.

 

A parábola dos cegos e do elefante, e as “questões indeterminadas”

Esta passagem introduz um conjunto de dez pontos de vista sobre o que é conhecido como os (avyākata) problemas indeterminados ou não declarados (veja *Th.10 e a seção de introdução antes desta). Isso aconteceu porque o Buddha as deixou de lado sem respondê-las, já que responder era irrelevante para alcançar a libertação em relação ao sofrimento e levava a brigas sem sentido. Aqueles que detêm esses pontos de vista são retratados como tendo se fixado em apenas uma faceta limitada da realidade, que eles percebiam apenas parcialmente e, então, o excesso de generalização a partir desta. Em outra passagem (Majjhima Nikāya I.428- 431), onde um monge diz que vai deixar de ser monge, a menos que o Buddha dê respostas sobre as dez questões não declaradas, diz o Buddha que nunca havia prometido dar respostas a essas perguntas, e comparou o monge a alguém atingido por uma flecha envenenada que recusa tratamento médico até que ele saiba tudo sobre quem atirou nele e sobre a composição da flecha.

“Senhor, aqui em Sāvatthī vivem muitos renunciantes, brāhmaṇas e ascetas andarilhos que têm outros ensinamentos, e que guardam vários pontos de vista, tendo várias preferências, tendo vários gostos, e que dependem de várias formas de apego dogmático. Os pontos de vista desses renunciantes e brāhmaṇas incluem:

O mundo é eterno: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

O mundo não é eterno: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

O mundo é finito: só isso só é verdade e tudo o mais é falso.

O mundo é infinito: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

O princípio vital é o mesmo que o corpo mortal: só isso só é verdade e tudo o mais é falso.

O princípio vital é diferente do corpo mortal: só isso só é verdade e tudo o mais é falso.

Após a morte, o Tathāgata [190] existe: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

Após a morte, o Tathāgata não existe: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

Após a morte, o Tathāgata tanto existe como não existe: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

Após a morte, o Tathāgata nem é, nem não é: somente isso é verdade e todo o restante é falso.

Eles vivem se rasgando entre si com palavras cortantes como adagas disputando e discutindo dizendo: ‘A realidade é desta forma e não daquela; a realidade não é desta forma, mas daquela’.”

“Monges, os ascetas andarilhos que buscam outros ensinamentos são cegos e carecem de visão. Não sabem o que é benéfico e o que não é benéfico. Não sabem o que é realidade e o que não é realidade. Sem saber o que é realidade e não realidade, vivem se rasgando entre si com palavras cortantes como adagas … No passado, monges, existiu um certo rei em Sāvatthī. Então, esse rei chamou uma determinada pessoa e disse: ‘Amigo, venha aqui. Reúna todas as pessoas em Sāvatthī que são cegos de nascimento em um lugar’. A pessoa respondeu ao rei: ‘Está certo, Senhor’ e, reunindo todos aqueles que nasceram cegos em Sāvatthī, foi ao rei e disse a ele: ‘Senhor, reuni todos os que nasceram cegos em Sāvatthī’.

‘Então, amigo, leve um elefante à presença dessas pessoas que nasceram cegas’. O homem respondeu: ‘Está bem, Senhor’, e apresentou o elefante às pessoas cegas de nascimento. Dizendo: ‘O elefante é assim’, ele apresentou a cabeça do elefante para algumas … a orelha para outras … a presa para algumas … o tronco para outras … o corpo para algumas … o pé para outras … a coxa para algumas … a cauda para outras e o final da cauda para outras …

Ele foi até o rei e disse: ‘Senhor, o elefante foi observado por essas pessoas cegas de nascimento. Agora é a vez do rei’.

Monges, então, esse rei foi até as pessoas cegas de nascimento e perguntou: ‘Vocês, cegos de nascimento, observaram um elefante?’ ‘Sim, Senhor, observamos um elefante’. ‘Se é assim, vocês, pessoas cegas de nascimento, digam como é um elefante’.

Aquelas … que tinham sentido a cabeça do elefante disseram: ‘O elefante é como um pote’. Aquelas … que tinham sentido a orelha do elefante disseram: ‘O elefante é como uma cesta de joeirar’. Aquelas … que tinham sentido a presa do elefante disseram: ‘O elefante é como uma relha do arado’. Aquelas … que tinham sentido o corpo do elefante disseram: ‘O elefante é como um armazém’. Aquelas … que tinham sentido a perna do elefante disseram: ‘O elefante é como um pilar’. Aquelas … que tinham sentido a coxa disseram: ‘O elefante é como um almofariz’. Aquelas … que tinham sentido a cauda do elefante disseram: ‘O elefante é como um pilão’. Aquelas … que tinham sentido o final da cauda disseram: ‘O elefante é como uma vassoura’”. Elas, dizendo que o elefante é como isto e não como aquilo … lutaram entre si com os punhos. O rei se divertiu com isso.

Do mesmo modo, monges, os ascetas andarilhos que procuram outros ensinamentos são cegos e carecem de visão … Eles vivem se rasgando entre si com palavras cortantes como adagas disputando e discutindo … .”

Paṭhama-nānātitthiya Sutta: Udāna 67–69, trad. P.D.P.

 

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.