política

Eleições e Nagarjuna

Confesso que meu interesse por política vai par a par com meu interesse pelas últimas novidades do BBB ou sobre a vida sexual das moscas da Austrália, mas em períodos de eleições é interessante perceber como parece que o mundo ao seu redor se exalta com os políticos (que, na verdade, não mereceriam um segundo olhar por sua falta de ética) e as pessoas parecem esperar que as outras sempre tenham opiniões e adotem partidos. Pessoas normalmente equilibradas começam a defender suas opiniões acaloradamente.

Em quem devemos votar? Na baixinha gorducha, brava, dentuça, que usa vestido vermelho e tem um amigo que fala errado (e não é a Mônica), ou no vampirinho muito mais articulado (e que pelo menos sabe se expressar), mas que no entanto tenta agradar todo mundo sem ter opinião própria? Então nessa última segunda-feira, pela primeira vez resolvi tirar a poeira do televisor e assistir um desses debates, que como sempre ocorre, demonstram o quão fundo é o buraco em que estamos por depender dos políticos brasileiros ~ ó Tiriricas!

Nagarjuna tem muito a nos ensinar aqui. Não pelos seus ensinamentos filosóficos profundos, mas simplesmente por sua existência. Nagarjuna é considerado como sendo alguém especialíssimo, o pai do movimento mahayana do Buddhismo e, assim sendo, é aclamado como patriarca fundador das principais escolas que surgiram a partir desse movimento. Terra Pura, Zen, Tien t´ai, escolas tibetanas, todas defendem que Nagarjuna foi seu fundador, ainda que todas tão diferentes entre si em prática e doutrina. Nagarjuna também teve inúmeras obras atribuídas a seu nome. Realmente um escritor/orador prolífico!

No entanto, quando a investigação histórica mais recente começou a se debruçar sobre Nagarjuna, começou-se a ver o quão pouco realmente conhecemos sobre essa figura considerada chave no Buddhismo. Filho de família hindu e mais tarde convertido ao Dharma buddhista, não se sabe ao certo em que século nasceu, que doutrinas exatas pregou, nem mesmo que obras realmente se pode atribuir a ele. Parece ter havido pelo menos uns três Nagarjunas vivendo em séculos e regiões diferentes e que, mais tarde, foram juntados numa só personalidade ‘extra-temporal’. E dependendo das obras que se decida atribuir ao Nagarjuna original, teremos também um mesmo Nagarjuna dizendo e defendendo coisas opostas! Ele é o racionalista, mas também um alquimista; ele é um defensor do vazio, mas escritor de inúmeras obras defendendo o pensamento formal; ele é um crítico do buddhismo antigo e inovador ímpar, mas também um defensor do buddhismo antigo contra as inovações contemporâneas!

Nagarjuna

Em outras palavras, Nagarjuna é vazio. Nagarjuna exemplifica como a história buddhista não é diferente daquilo que fazemos no nosso dia a dia: criamos personalidades, projetamos nossos sonhos e esperanças em outros seres e no fim defendemos com unhas e dentes não tal e qual pessoa, mas sim aquilo que resolvemos enxergar e acreditar que o outro seja.

Estas eleições foram decididas muito tempo atrás. Há vários anos, quando todo o gabinete principal e assessores do atual presidente foram descobertos como corruptos, ladrões e comprados – só o chefe escapou de ser mandado embora. E então, surpresa surpresa, a popularidade do chefe dali para frente somente cresceu. Nascia naquela ocasião a idealização de um personagem, impermeável a qualquer vicissitude. E como todos os personagens políticos, vazio de existência inerente.

Sim, para o Buddhismo indivíduos e pessoas não existem em si. Eles são constructos, condicionados, entre outras coisas por nossas próprias projeções. E o debate político nada mais é do que isso: um debate entre criadores de opiniões, projetores de ilusões, psicólogos políticos que tentam mostrar seu ser vazio como possuidor de todas aquelas qualidades que os eleitores qualificam como ‘boas’ num certo momento histórico. Isso nada tem a ver com o que realmente pensam, fizeram ou hão de fazer. É a imagem que conta. E ganha quem conseguir projetar a imagem desejada mais eficientemente na mente do ‘povo’.

O professor Santikaro mencionou certa vez que a conversa de ‘Esta pessoa falou isso, aquela aquilo, meu nome é tal, venho de tal lugar’, tudo isso é o que Ajahn Buddhadasa chamava de linguagem do povo, uma linguagem que fala sempre sobre pessoas, sobre o eu, sobre o ego, e revela a tendência de achar que as pessoas existem da maneira como falamos sobre elas.

Sem atenção nos envolvemos com essa linguagem popular, a linguagem da maneira como as coisas ‘parecem’ ser. Passamos por cima das contradições, da fragilidade dos seres humanos e da tendência avassaladora de criarmos ilusões. O poder é algo realmente fascinante. Como ele corrompe de forma democrática! O prazer e a felicidade viciam. Nenhum ser deseja sofrer, então quando alguém se encontra numa posição de poder, isso é demais para a maior parte das pessoas, talvez para todas.

Como disse um amigo esses dias, políticos são como fraldas, ficam sujas constantemente e sempre precisam ser trocadas. A menos que tenhamos a certeza da probidade moral de um dos candidatos e seu partido, a regra da fralda ainda me parece a melhor. Sempre troque, pelo menos não se dá o gostinho da estrutura da corrupção (que não é característica de nenhum partido, mas de todos) se fortalecer ainda mais. Não importa quem esteja lá em cima (ou lá em baixo, dependendo da perspectiva), o poder corromperá, as ilusões persistirão e a maioria continuará vendo tudo em termos de pessoas, egos (bons e maus) e absolutos. Na próxima eleição acontecerá a mesma coisa também, e mais uma vez será hora de nos lembrarmos de Nagarjuna:

“No desvanecer das impurezas da ação, há a libertação. As impurezas da ação pertencem àquele que faz discriminações e estas, por sua vez, resultam da obsessão. Obsessão, por sua vez, cessa no contexto da vacuidade”.

“Compreendida independentemente, pacífica, não obcecada por obsessões, sem discriminações e variada em significados: tal é a característica da verdade”.

Mulamadhyamakakarika ~ Nagarjuna
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6 Comments

  • 05/11/2010 - 12:42 am | Permalink

    Gostei muito desse post, pois de tudo que tenho lido por aí no que se refere a situaçao dos políticos atuais ou do passado, penso ser essa a idéia que coloca um pouco de luz nesse sombrio mundo da política.

    Gasshô.
    Rosana.

  • Anonymous
    04/11/2010 - 1:18 pm | Permalink

    sim. entendo. depois fiquei pensando que no início do texto você fala de sua relação pessoal com a política, não querendo dizer que você defenda uma não-ação política. é necessária, sim, uma perspectiva mais clara. nessas épocas isso fica evidente.
    obrigada.
    um abraço
    marilaine

  • 04/11/2010 - 8:43 am | Permalink

    Obrigado pela visita! Marilaine, talvez alguns leitores possam ter tido a impressão a partir do texto de que eu esteja defendendo uma não ação politica, o que absolutamente nao é o caso. Quando digo sobre o BBB é somente para dizer sobre meu interesse pessoal em participar, debater, defender, exaltar-me por debates politicos, personalidades e campanhas, como é tão frequente de ver nesses períodos. Mas acredito que toda ação nossa é política e marca, pela ação ou omissão, uma posição. E para que haja a melhoria (dentro dos limites que uma melhoria é esperável nesse mundo condicionado) é preciso, e fundamental, ter uma perspectiva omais clara possível do que é o mundo e os jogos que nele acontecem.

  • Anonymous
    02/11/2010 - 11:05 pm | Permalink

    acho que entendo sua perspectiva, mas concordo apenas em parte com o que você escreve, pois acho que o que acontece na política merece mais atenção, sim, do que o que acontece no bbb. não só no período “apaixonado” das eleições, em que, como você mesmo escreve, as pessoas se apegam às ideias e a certas figuras, mas sempre. pois também não somos responsáveis pelo que acontece? (essa é uma pergunta de verdade, não é retórica.)
    um abraço
    marilaine

  • Ademir Ferrer Soares
    02/11/2010 - 8:25 am | Permalink

    Pois sempre faço a pergunta de forma simples: como agiria o buda numa situação destas?
    Ter lucidez a mais próxima da realidade possível, tentado fazer valer nossa cidadania?
    Ou nos contaminamos ao participar do processo, o melhor é passar ao largo?
    Não há solução, sempre foi assim e sempre será?
    Prefiro fazer valer minha cidadania, e no mínimo votar!

  • 31/10/2010 - 1:46 pm | Permalink

    Não concordo com todo o escrito, mas com a perspectiva sim: um distanciamento é o saudável. Uma ausência de expectativa e uma vigilância constante como a tudo mais, aliás!
    Porém, há que se pensar e fazer uma escolha ainda que eu tenha a noção de que o que fazemos é meramente contribuir no sentido de fomentar condições favoráveis (o mais possível, ao menos…) para que sigamos naquilo que realmente importa.

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