direitos humanos ética fundamentalismo intolerância religiosa política radicalismo

Eu Não Sou Charlie

Correndo o risco de certamente ser mal entendido e tomando um caminho oposto à totalidade da imprensa ocidental, eu não sou charlie. É óbvio e absolutamente desnecessário dizer que todo e qualquer terrorismo deve ser firmemente condenado. Nenhuma violência é admissível e, por isso mesmo, eu não sou charlie.

O mundo se move de acordo com causas e condições. Os acontecimentos do mundo precisam sempre ser refletidos a partir de toda sua história e contexto (para uma visão contextual mais equilibrada sobre o atentado em Paris, confiram “9 Points to Ponder on the Paris Shooting and Charlie Hebdo” de Omid Safi, diretor do Centro de Estudos Islâmicos da Universidade de Duke). Depois de dois dias lendo e vendo notícias a respeito do atentado na França, o que mais me impressiona é a ausência de qualquer espírito de autocrítica por parte da imprensa.

É natural que num momento como este os colegas dos cartunistas e jornalistas assassinados se reúnam em torno de uma mesma mensagem. Mas de uma classe que se espera um espírito critico vindo da escolha de uma profissão que supostamente busca a clara expressão de notícias na busca da verdade, essa ausência de autocrítica é desalentadora.

Para várias pessoas no mundo não há nada de sagrado na vida. Respeitemos isso. Mas há também muitas pessoas que consideram que há coisas sagradas, e elas merecem igual respeito. Fazer gozações grosseiras a respeito dos profetas e fundadores das religiões é parte desse desrespeito generalizado em nome do humor e de uma não refletida ‘liberdade de expressão’.

Um humorista brasileiro, ao saber do atentado na França, disse que culpar o humor pelo atentado é como culpar uma mulher por um estupro. Faça-me o favor. São coisas completamente diferentes. O humor dirigido a fundadores de religiões que milhões tomam como algo sagrado em suas vidas são agressões diretas. Mulheres não agridem estupradores. Jornalistas e cartunistas que usam de seu lápis para ridicularizar tudo e todos, com ou sem qualquer base, agridem. É claro que não se pode comparar a agressão por meio do lápis com a agressão das armas. Porém, que não se engane, ambas são agressões.

É fundamental que a opinião pública esteja consciente de que os órgãos de imprensa são empresas comerciais. Empresas comerciais não são movidas por ideais altruísticos, mas são movidos pelo lucro, pelo patrocínio, por números. É por esse motivo que mais de 90% das notícias na TV e nos jornais são a respeito de escândalos, assassinatos, corrupção e violência, a tal ponto que alguém sem espírito crítico terá a impressão de que apenas isso ocorre em suas cidades. Noticia-se o que vende. E humor sarcástico vende bem e muito.

Não está na hora da imprensa fazer uma profunda reflexão a respeito de sua colaboração no terrorismo e na violência? Quem aparece nos jornais? Pessoas que fazem o bem, são altruístas e caridosas ou são os assassinos e corruptos? Na cabeça de pessoas desequilibradas, essa é a maneira mais rápida de atingir o estrelato. Quantas notícias você leu ou assistiu a respeito de terrorismo islâmico em 2014? Agora tente se lembrar de quantas notícias apareceram sobre a cultura ancestral islâmica, sobre sua influência fundamental na intelectualidade, arte, literatura e ciência do Ocidente? Quantas notícias você se lembra de ter lido ou assistido sobre as associações de caridade nos países islâmicos, sobre destaques humanitários do presente e do passado ou sobre suas doutrinas de paz, caridade e beleza na vida? E a partir desta total desproporção na escolha das pautas jornalísticas, a imprensa tem a falta de vergonha de dizer que ela é imparcial, apenas dá as notícias e é inocente a respeito de tudo o que ocorre no mundo.

Um jornalista da globo, um dia depois do atentado da França, disse que o fundamental era lembrar que o princípio fundamental do humor era o de que nada era sagrado, justificando que o humor pode fazer tudo. Ora, elevar qualquer coisa como universal a partir de princípios autoestabelecidos é justamente a crítica que muitos fazem às religiões. Ou seja, a imprensa e muito da opinião popular ocidental trata o humor como uma religião, tratando como sagrados os princípios que os próprios humoristas estabeleceram e permitindo que possam criticar, abusar, satirizar, agredir de maneira grosseira e incisiva todo o resto.

imagesNão estou falando aqui de charges e críticas a coisas que realmente aconteceram. Mas muitas das charges e gozações veiculadas são diretamente agressões a expressões e figuras religiosas que nada tiveram ou têm com o tema da charge. Em nome da liberdade de expressão se desvaloriza completamente a importância do respeito às pessoas. Será que os senhores da imprensa, do alto de sua autoproclamada imparcialidade e todo poderoso alcance universal, realmente acham que o mundo vai melhorar a partir de desenhos do profeta carregando um rifle ou de charges dizendo que o Islã é uma merda? Ora, todos sabem que vários países islâmicos atualmente, como também ocorreu e ainda ocorre em culturas cristãs, buddhistas, judaicas e também não religiosas, têm seus elementos desequilibrados que fazem uso da religião e de qualquer crença que seja para seus fins agressivos. Ao invés de criar um ambiente de paz, de incentivo à comunidade e ao respeito, certos humoristas, exemplificados na revista francesa fazem questão de agredir mais para atrair atenção e admiração. É estupidez e uma provocação aberta gozar de povos e religiões que se sabe terem elementos difíceis na atualidade. Se queremos um mundo melhor, não é provocando ainda mais (acrescentando à história séculos de abusos que o Ocidente fez e faz a países asiáticos e africanos), mas incentivando os melhores valores e exemplos, alienando de qualquer justificava os elementos desequilibrados que usam a religião para justificar suas tendências assassinas.

Condenemos veementemente o terrorismo e a violência, mas não nos julguemos tão inocentes e santos a ponto de não perceber nossa parte de colaboradores de uma cultura de agressividade, preconceito e desrespeito em nome de uma irrefletida “liberdade de expressão”.

 

 

 

 

Compartilhe com seus amigosShare on Facebook1.4kShare on Google+6Tweet about this on TwitterEmail this to someone

10 Comments

  • Pingback: Eu não sou Charlie « Olhar Budista

  • Rosana
    18/01/2015 - 7:32 pm | Permalink

    Parabéns pela sua lucidez Professor Ricardo!
    O Papa Francisco está sendo crucificado por pensar e falar que “liberdade de expressão tem limites”!
    Grata por sua lucidez!
    Gasshô.

  • Manuela Cabrita
    16/01/2015 - 11:11 am | Permalink

    Inteiramente de acordo! Quem quer que se arvore defensor da liberdade deve, antes de tudo, ser um ser humano de corpo e cabeça inteiros, capaz de se colocar no lugar do outro e não entende-se como dono da verdade e acima de todos os que não pensam da mesma forma.
    Indiscutivelmente, qualquer atentado, independente da forma, é condenável.
    Há maneiras mais inteligentes de marcar posições, defender ideias, sem levar a um estado de coisas que galvanizam milhões que….a grande maioria nem sabe porquê.

  • dhanapala
    16/01/2015 - 10:52 am | Permalink

    Alguns links interessantes:

    1. http://operamundi.uol.com.br/conteudo/reportagens/39137/o+mal-estar+da+populacao+muculmana+francesa.shtml
    2. http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/39104/autor+de+palestina+joe+sacco+questiona+limites+da+satira+em+resposta+a+ataque+a+charlie+hebdo.shtml
    3. http://pauloaeborges.blogspot.com.br/2015/01/nao-nao-sou-e-espero-nunca-ser-charlie.html
    4. http://www.brasil247.com/pt/247/mundo/166522/Fran%C3%A7a-prende-humorista-que-faz-cr%C3%ADticas-a-judeus.htm
    5. http://www.lanacion.com.ar/1760255-el-papa-francisco-sobre-charlie-hebdo-no-se-puede-insultar-la-fe-de-los-demas
    6. http://www.publico.pt/mundo/noticia/charlie-hebdo-uma-reflexao-dificil-1681949

    «Lamentar a matança não significa que precisamos apoiar o racismo virulento que os cartunistas do Charlie Hebdo propagaram. De fato, diante das calúnias, da criminalização e da violência apoiada pelo estado em relação aos muçulmanos na França e em muitos países não muçulmanos (incluindo países buddhistas como a Birmânia e o Sri Lanka), é crucial se opor à opressão tão fortemente quanto apoiamos a liberdade de expressão. Enquanto buddhistas compromissados a investigar causas e condições, façamos uso de nossa capacidade de manter em mente complexidade e condições. Que todos os serem possam estar seguros; possam o racismo e a islamofobia esvanecerem; possa a violência interpessoal e sistêmica cessar». –Buddhist Peace Fellowship

  • Jankiel de Campos
    10/01/2015 - 1:43 pm | Permalink

    Gostaria que o autor falasse sobre sua posição sobre a maneira como o governo da Birmânia trata os muçulmanos daquele país

  • 09/01/2015 - 9:41 pm | Permalink

    concordo plenamente com a opiniao.

  • Robson
    09/01/2015 - 4:44 pm | Permalink

    Concordo plenamente.
    Liberdade de religião e respeito entre todos vem antes de liberdade de expressão.

    O jornalismo atual é igual coca-cola.
    A maioria sabe que não presta mas bebe mesmo assim.

    A imprensa brasileira se transformou numa proliferadora de violência(pra que as pessoas fiquem em estado mental de medo)futebol(pra tomar o tempo útil das pessoas) pornografia pra deixar as pessoas no estado animalizado e com isso esquecerem dos valores humanos cruciais para educação e evolução da raça.

    Mas esses jornalistas sem princípios quando mexem com religiosos extremistas acabam levando a pior.

    A classe precisa rever sua base e atuação na sociedade.

    A sociedade também precisa ver se cria bom gosto e deixa de dar audiência a mídia inútil.

    Então a mudança tem que ser em ambos lados.

  • dhanapala
    09/01/2015 - 3:22 pm | Permalink
  • 09/01/2015 - 2:08 pm | Permalink

    Análise pertinentíssima.

  • Comments are closed.