Feliz Karva Chauth!

Era uma vez uma mulher chamada Karva. Seu marido nadava num rio quando um grande crocodilo o alcançou. Karva não era uma mulher qualquer no entanto. Por causa de seu intenso amor e devoção ao marido ela havia adquido um poder feminino especial (shakti) e foi capaz de rapidamente amarrar o crocodilo com um fio de algodão. Ela então fez um pedido a Yama, o senhor da morte, que ele levasse crocodilo aos infernos e nunca mais incomodasse seu marido. Bem, Yama recusou, e então Karva ameaçou de jogar uma praga no próprio Yama, caso não atendesse seu pedido. Yama não era bobo. Sabia que aquela mulher tinha um grande poder nascido de sua devoção ao marido (pativrat, a devoção da esposa). Yama enviou a fera aos infernos e abençoou o marido de Karva com uma vida longa e feliz.

Hoje na Índia se comemora o Karva Chauth, um festival em que as mulheres fazem um jejum do nascer do sol até o momento em que a lua nasce no horizonte a fim de desejar a longevidade e saúde de seus maridos.

Claro que atualmente várias feministas devem ver esse festival como mais uma forma de manter a mulher subserviente ao homem, uma forma cultural de manter a dependência feminina, etc.,etc. Mas podemos também ver por um outro lado, o da prática de algo cada vez mais esquecido em nossa modernidade, a demonstração de interesse pela saúde do outro. Numa época em que as relações são cada vez mais construídas sobre as frágeis bases do “o que eu ganho com isso” e “o que ele/a pode me dar e oferecer”, aqui temos todo um feriado em que a mulher demonstra inequivocamente através de um sacrifício pessoal (o jejum) o quanto deseja que seu parceiro possa viver por muito tempo, o quanto deseja que seus anos juntos se prolonguem. Essa demonstração acaba encontrando a simpatia masculina, que percebe a sorte que tem de ter uma mulher com essa natureza. Se ele for um homem de coração bom sem dúvida isso fará com que ele a reconheça e ame ainda mais.

Nesse dia as mulheres não trabalham. Elas fazem desenhos com henna em suas mãos, e passam o dia conversando com amigas e parentes. É uma festa, afinal de contas, e uma festa é para ser alegre. Essa é uma festa feminina, frequentemente acompanhada de rituais, cânticos e pelas mulheres mais velhas da comunidade, as quais contam as diversas narrativas relacionadas ao festival. Depois de um dia de jejum, ela oferece uma oração à lua pela longevidade do parceiro, momento em que seu poder shakti está acumulado no máximo. Ela está em posição de fazer demandas ao próprio senhor da morte. O jejum é quebrado com o homem oferecendo a ela a primeira garfada a partir da qual ela passa a se alimentar novamente. E muito frequentemente ele também oferece a ela, como símbolo de seu reconhecimento, jóias e vestidos. Por vezes como sinal de empatia, ele também observa o jejum naquele dia, ou pelo menos se espera que os homens nesse dia sejam muito afetuosos com suas parceiras.

Numa outra estória relacionada ao festival, Yama aparece para pegar a vida do marido de Savitri. Savitri implora que seu marido viva. Yama recusa e parte levando o homem morto, mas Savitri jejua e segue Yama. Pelo poder acumulado pelo gesto de Savitri, Yama não tem outro jeito senão dizer a ela que pode fazer um desejo qualquer, menos pedir pela vida do marido. Savitri, que era bem esperta, pede que deseja ser abençoada com filhos. Acontece que Yama sabe muito bem que Savitri, como esposa devota, jamais seria capaz de ter filhos que não fossem de seu amado marido. É assim que Yama é forçado a restaurar a vida de seu amado.

No Karva Chauth vemos como uma cultura milenar transforma em festa, e portanto num ritual significativo e social, uma expressão de afeto e apreço pelo outro, incentivando as qualidades mais nobres do ser humano.

Karva Chauth no Wikipedia

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

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