Imagens positivas

Ontem tive uma boa conversa com o prof. Alfred Bloom, um dos mais importantes representantes do Buddhismo Shin (Terra Pura) no mundo. E talvez alguns dos leitores das ‘folhas’ possam se interessar por um ou outro ponto discutido.

Uma das histórias interessantes foi a de um encontro, certa vez, com alguns monges theravada do Sri Lanka, os quais lhe contaram um acontecimento interessante. Costumavam dar ensinamentos profundos em seu templo, mostrando como o nirvana é ‘nada’ ou ‘vazio’. Mas, com o tempo, perceberam que o público que os ouvia interpretavam que ‘nirvana é vazio’ como uma licensa para não fazer nada, ou seja, se é vazio, então não há nada para se fazer ou se esforçar. Foi aí que começaram a se utilizar de imagens positivas para o nirvana, como aquelas de uma cidade onde reina a felicidade.

Esse tipo de constatação é um fundamento do Buddhismo Shin, que habilidosamente se utiliza de imagens ‘positivas’ como as da Terra Pura, dos pássaros que lá cantam o Dharma e da ação misericordiosa de Amida.

Parece-me que esse processo de adaptação, que o Shin exemplifica desde sua fundação por Shinran no século XIII, é um processo contínuo e que se estende até os dias de hoje. É um processo, na realidade, essencial na transplantação efetiva do Buddhismo para solo brasileiro. Cada vez menos no Brasil o dharma se mantém como um patrimônio exclusivo de orientais (japoneses, chineses e coreanos em particular) para se tornar ‘dos brasileiros’. E cada vez mais o Buddhismo sob suas diversas formas é aceito na sociedade. Para isso ele percorreu um longo caminho, em todos os países ocidentais, um caminho adaptativo onde não faltou discriminações e incompreensões. Tanto nos EUA, cuja Suprema Corte decretou em 1922 que somente seriam considerados cidadãos americanos aqueles que fossem “americanos brancos livres e pessoas de ascedência africana”, promulgando em 1924 o Ato de Exclusão Oriental, quanto no Brasil, onde japoneses e seus descendentes foram perseguidos e policiados na década que se seguiu à grande guerra, comunidade étnicas buddhistas se viram discriminadas, ou frequentemente mal-interpretadas.

Os tempos são outros, e agora o dharma encontra novos obstáculos para seu enraizamento em solo pátrio. Que obstáculos e que reflexões que se poderia tirar a partir disso?

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

2 Comments

  1. …gostaria muito de poder
    estar lá.
    Se possivel, depois por
    gentileza, posta aqui ou
    em algum outro lugar ( que
    a gente acha), a transcrição
    dessa palestra.

    ana

  2. Prezado professor,
    Sobre o uso de imagens positivas para Nirvana, que o assemelham a um Paraíso (cidade feliz etc.), não corremos o risco de confundí-lo com o Éden? E, ao invés de tratarmos de Buddhismo, não acabaríamos dando a impressão que Budismo e Cristianismo são a mesma coisa apenas com nomes diferentes e variações culturais e, assim, não haveria razão para ser Buddhista? Aliás, ser Buddhista não se tornaria apenas uma “forma exótica e oriental” de ser cristão, com Buddha no lugar de Javé e Nirvana no lugar de Éden?
    Bem, esta é apenas uma pergunta.
    Frequentei um templo Shin por certo tempo, e lá encontrei pessoas que diziam que Amida Nyorai era a mesma coisa que Deus e que Terra Pura era o mesmo que Nirvana e Éden – o Sensei tinha uma atitude dúbia, ora reforçava estas comparações e ora as corrigia, creio que estava em seu papel, afinal ele deve acolher as pessoas que chegam ao templo. Mas, eu, como mero praticante de um método de Libertação, não sei se isso esclarece ou confunde. Não sei se isso liberta ou prende. Não sei se isso é adpatação ou confusão. O que o senhor acha?
    Obrigado,
    Beto

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