Mahayana vs. Theravada XIII

[continuando daqui]

Diz então: “Embora tanto o Theravada quanto o Mahayana tenham uma tendência a se identificar mais com correntes de esquerda do que outras crenças, o tema divisivo do aborto dividiu essas duas correntes do Dharma da mesma forma que fez com o público norte-americano em geral“.

Aqui fiquei perdido. A quê o autor estaria se referindo? Ele explica: “Este assunto específico de debate é um exemplo de como ambos, ainda que considerados altamente correlatos no que se refere à perspectiva política, ainda assim podem divergir dramaticamente em linhas de ortodoxia-e-reforma. Com a recusa do lado Theravada em reconhecer o direito de escolha da mulher em quaisquer circunstâncias…

Essa frase é típica de pensadores mais preocupados em defender seus pré-conceitos ao invés de “pensar” sobre o tema em questão. Quando alguém escreve “se recusa a reconhecer o direito da mulher” imediatamente cria na mente do leitor uma imagem negativa. Mas como o Theravada (ou qualquer religião) pode ir contra os *direitos* das mulheres? Que absurdo! É isso que imediatamente é criado na mente do leitor. Mas da mesma forma que o autor é ingênuo ao tratar das opções políticas “correlatas” dos buddhistas, ele também é ingênuo e simplista ao tratar do tema do aborto, um assunto extremamente complexo. Evidentemente que (talvez propositadamente) a formulação da frase encobre e esconde completamente as considerações sobre o direito do feto (um ser vivo segundo o Buddhismo) em viver, algo aceito por Theravada quanto por Mahayana igualmente.

…e a adoção pelo Mahayana de uma posição mais atenuada e modificada pelo contexto político e social, reconhecendo o direito à vida ao mesmo tempo que propõe atenuantes, fica aparente que a variedade promulga um sistema de valores que corresponde mais de perto ao da população da era moderna“.

Seria interessante saber a que posições seriam essas que o autor atribui ao Mahayana em geral e em que medida aqueles que as propõem são reconhecidos pelo Mahayana em si. E em que se apóia para dizer que no Theravada isso é diferente. Bem tipicamente, depois de lançar uma frase no ar, sem prova ou dados, o autor chega a mais uma de suas *conclusões*: “Portanto, a mentalidade Mahayana se afasta mais uma vez do tradicionalismo para favorecer a camaradagem, que sem dúvida se propaga a sensibilidade à opinião pública“. O que é isso? Ele está dizendo que o Mahayana apóia o aborto e isso para “favorecer a camaradagem”?!

Até agora o autor não mostrou um único ponto de tradicionalismo no Theravada, apesar de que de tanto repetir a palavra qualquer leitor desavisado e ingênuo desse artigo por agora já estará convencido que o Theravada é um tradicionalismo retrógrado e o Mahayana a imagem da perfeita religião para o Ocidente.

[continua]

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.