Mahayana vs. Theravada XV

[Continua daqui]

É dito que o Mahayana “respeita seus sutras” – que na verdade deveria ser escrito como ‘respeitar’ os sutras antigos (ou seja, pré-mahayana). Entretanto, esse “respeito” geralmente aparece na forma condescendente do ‘eu respeito, embora inegavelmente inferiores’, como alguém que dá um tapinha na cabeça de alguém e pensa: ‘isso mesmo menino, nesse nível que você está, até que sua compreensão não está ruim’. Essa é a tônica geral dos escritos polemicistas dos mahayanistas quando se referem a qualquer escritura antes do próprio surgimento do Mahayana. Isso poderia ser chamado de “respeito”?

Prossigamos… Querendo argumentar que a opinião geral de o Theravada ser a escola mais antiga, o argumento proposto foi “Acho complicado dizer qual a mais antiga… e cada fonte que lemos é parcial. Talvez as duas sejam simultâneas… Sendo Sidharta um buda, ele provavelmente também tinha seus níveis de alunos… e ensinava coisas mais complexas aos seus discipulos que já eram bodhisattvas, arhats e iniciados…

Ora, certamente que o Buddha ensinou diferentes coisas para diferentes alunos – não é essa uma característica de qualquer bom professor? – , e isso aparece em textos tanto do theravada quanto do mahayana. Ou alguém pensa que o mahayana só consiste de textos ‘filosóficos e profundos’??! Ou o Theravada somente de textos sobre moralidade!? Acontece que o argumento de o Buddha ter tido vários tipos de alunos é colocado pela articulista justamente para explicitar que os alunos superiores são aqueles que irão pertencer ao Mahayana, enquanto que os inferiores ao Theravada. Usa-se de um argumento verdadeiro e obviamente inquestionável para demonstrar uma tese preconceituosa e sem base. Pensar que somente o mahayana é o ensinamento para bodhisattvas e iniciados é um puro preconceito que facilmente seria diluído por meio do conhecimento profundo de ambas as tradições.

[continua]

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.