Mahayana vs. Theravada XVI

[Continua daqui]

A autora continua: “…e aos que ainda estavam começando o caminho, e estavam igualmente interessados, dava outro nivel de aprofundamento no ensinamento. isso me parece logico. A briga política entre essas duas, o sthiravadas [sic] e os que depois foram chamados de mahayana é triste“.

Mais um engano aqui, qual seja, o de pensar que os mahasanghikas (que se dividiram dos Sthaviravadas) foram aqueles que mais tarde seriam chamados de mahayana. O Mahayana é fruto de uma elaboração bastante posterior à divisão entre Sthaviravada e Mahasanghika, e influenciado por elementos de diversas escolas da época. Como os Sthaviravadas foram aqueles que deram origem ao Theravada, é conveniente afirmar que o “nível de aprofundamento” diferente foi dado aos Mahasanghikas (erroneamente tomados como precursores do Mahayana) e o nível mais baixo aos Sthaviravadas. Para tentar então dar uma maior explicação a esse argumento, é dito: “… E acho que para entendermos isso é preciso entender muito não só o ensinamento, mas também o contexto cultural e político da epoca. Vou levantar uma hipótese (e não intenciono ofender ninguem, por favor)… A reencarnacao é algo natural no budismo. E buda tinha discipulos elevados. Digamos que talvez o theravada seja o mais antigo… ele se limita aos sutras antigos“.

Não vou entrar aqui na questão da “reencarnacao é algo natural no budismo”, o que daria margem a inúmeros desenvolvimentos e facilmente demonstrável de seu engano. Mas é preciso dizer que o theravada se limita aos suttas antigos porque ele, sendo mais antigo, fechou o cânon mais cedo. O mahayana não se limita aos suttas antigos justamente porque quando ele surgiu *já* existiam novos suttas. Do jeito que é colocado na mensagem parece que o theravada é que foi picuinha e só escolheu os antigos como mostra de ser retrógrado… Além disso, novamente aparece o “buda tinha discipulos elevados”, os quais, obviamente segundo a autora, são aqueles que pertencem ao Mahayana.

[continua]

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.