Meu amigo terapeuta

Tenho um amigo que é ordenado no Zen. Chama-se Genshô. Sete anos atrás, ele enviou uma mensagem para uma lista de discussão buddhista, a Buddhismo-L. Vale a pena relembrá-la:

Amigos no Dharma,

Tenho um amigo a quem estou ensinando sobre o buddhismo. Ele é um terapeuta de excepcionais, super e infradotados. É um homem brilhante e de grande formação intelectual. Entrou na faculdade antes dos 17 anos e falar com ele é um privilégio. Esta semana ele não chegou muito bem. Quando conversamos ele disse porque: havia morrido um paciente segurando sua mão. O rapaz que falecera passara seus 26 anos de vida deitado em uma cama, jamais havia podido falar. Sua cabeça era extremamente deformada, e ninguém pode entender sem experimentar o que é sentir-se um ser com aspecto de monstro e saber que não é nenhuma ilusão. Meu amigo foi seu terapeuta durante 16 anos. Era a única pessoa que conseguia se comunicar com ele. O método era o seguinte: meu amigo lhe dava a mão e com o outro braço o paciente apertava sua cabeça contra seu peito. Com variações de respiração, arfando ele tentava comunicar algo, meu amigo que é quase um bruxo de sensibilidade, ouvindo seu coração ansioso e sentindo o levantar e baixar de seu peito, tentava adivinhar o que ele queria comunicar. Falava com ele e com acenos afirmativos de cabeça sabia se havia interpretado corretamente seus sinais. Pois esta semana o doente disse: eu vou morrer agora, meu amigo segurou mais forte sua mão e disse apegado: – Não vá! – Mas ele fez um aceno afirmativo com a cabeça, e aquele homem que jamais teria alguém que o desejasse, segurando a mão da única pessoa que havia conversado com ele em toda sua vida, lentamente, foi embora. Meu amigo não estava muito bem. Quando ouço histórias assim percebo como é fácil fazer uma bondade contida em um único ato, e sinto que não tenho a capacidade de bodhisattva de meu amigo. Heroísmo é esta persistência de muitos anos fazendo um pequeno ato a cada dia, 16 anos segurando a mão de um mudo e colocando a cabeça em seu peito, sabendo que o doente jamais se levantaria daquela cama. Não tenho tanta coragem. Meu amigo é muito melhor que eu. Como posso ensinar o Dharma a ele, se mestre é ele, e sou apenas um principiante?

Rev. Gensho – 12 de agosto de 2000

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

2 Comments

  1. de Shundo Aoyama a Dainin Katagiri, esse texto reflete a sensibilidade em que grandes professores do Zen que reverencio se expressam efetivamente

  2. Absolutamente sem palavras, me curvo em reverência e respeito!
    Preciso refletir muito neste texto…
    Obrigado, Dhanapala.

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