Montanha Russa

Grisson, da série de TV “CSI”, trata diariamente dos mais escabrosos e terríveis casos de crimes ocorrendo na área de Las Vegas. Qual o hobby dele? Montanha Russa.

Montanhas Russas são a epítome simbólica dos altos e baixos de nossas vidas. As pessoas anseiam por elas. As subidas são cheias de expectativas, o futuro está logo na próxima curva, mas quando você menos espera, vumpt!, uma descida monumental pode estar reservada para você. As descidas por vezes são pura queda livre, 120km/h a toda velocidade, e você nem tem tempo de respirar tamanha as forças gravitacionais te puxando para baixo; por vezes a descida tem curvas, pequenas e grandes surpresas aparecendo aqui e ali; e dependendo da montanha russa, até loopings que te viram de cabeça para baixo e você não sabe mais onde estão seus pés.

Quem já não sentiu o chão faltando sob os pés diante dos absurdos e incongruências que pessoas, coisas e situações nos aprontam? Ficamos de ponta cabeça, as pernas balançando na posição invertida; o que é este mundo? Por que tudo parece o contrário do que deveria ser? Por que o mundo parece louco e as pessoas se comportam tão egoisticamente? Por quê? Por quê?

E vem a monumental descida e uma breve subida em velocidade descomunal que parece que sua alma sairá do corpo pela cabeça enquanto o corpo despenca na direção do abismo.

Algumas montanhas russas têm tantos loopings e são tão rápidas que nem se tem tempo de perceber direito o que ocorre; é como sermos jogados num liquidificador. Alto, baixo, direito e esquerdo perdem o sentido. Referências desaparecem. E quantos hoje, de nossos companheiros na jornada da vida, não parecem assim, vivendo num liquidificador vivo, puxados pelas forças centrífugas de montanhas russas existenciais? Montanhas por vezes criadas por eles mesmos, por vezes pelas circunstancias. Nas montanhas russas, os breves momentos de empuxo, apreensão e surpresa podem parecer que não se acabam. E não adianta pedir para parar! Hoje uma senhora gritou durante todo o trajeto para parar a todos os pulmões! Mas não adianta, idapaccayata, as coisas seguem seu percurso, segundo causas e condições, e uma vez sentados e os cintos amarrados, o chicote de fogo traçará no céu todas as curvas reservadas no seu pacto inicial.

Mas por que as pessoas se sujeitam a isso? Por que homens e mulheres até pagam para terem seus cérebros trocados por seus estômagos e terem a sensação de seus corpos estarem sendo despregados de seus esqueletos? E as crianças adoram! Nós, as crianças, até vamos muitas e muitas vezes, experimentando as várias montanhas russas, torres e quedas. Talvez porque, apesar dos perigos, da falta de ar e de sua cabeça ser jogada para frente e para trás, no final tudo acabe bem, tensões são aliviadas, e exista até mesmo um prazer em ser a roda do ioiô sendo jogado, girando e girando para todos os lados.

Quando você se sentir numa montanha russa, quando as descidas parecerem longas demais e você sentir que as forças opostas são tantas que as partes de seu corpo estão a ponto de se separar, pense que de certo ponto de vista pode até haver um certo prazer nisso. A realidade de nossas vidas pode ser vista desde vários pontos de vista e alguns deles são do cômico na tragédia, do divertido na estupefação do caos, da piada inusitada nas situações insensatas e absurdas ao nosso redor. Escolha, pelo menos por vezes, esses pontos de vista. Relaxe, abra os olhos e saiba que, se seu cinto estiver bem colocado, tudo acabará bem. Sente-se e desfrute o percurso!

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

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