Morte e equilíbrio

morte e equilíbrio ricardo sasaki

Num livro presente no Cânone Pāli da tradição Theravāda há um verso do Buddha que diz: Kāmesu giddhā pasutā pamūḷhā, avadāniyā te visame niviṭṭhā; Dukkhūpanītā paridevayanti, kiṃsū bhavissāma ito cutāse. ~ Suttanipata 774

Que na minha tradução fica assim: “Os que são cobiçosos engajam-se e ficam apaixonados por prazeres sensoriais. Seguem o caminho instável. Neste estado miserável, eles se lamentam: ‘O que nos acontecerá após a morte?’”

A palavra visama (vi+sama) é aquilo que não é harmonioso, plano, igual. Ela implica aquele tipo de desequilíbrio que nos tira da paz de espírito que tanto ansiamos. O que não é harmonioso, é sofrimento. O Buddha aqui está dizendo que a dominação pelos prazeres torna o homem desequilibrado, seu caminho é instável e desarmônico. Prazeres podem ser buscados em vários lugares. O mais comum deles são os prazeres que vêm dos sentidos. Mas não são os únicos. Até mesmo nossa busca espiritual pode estar influenciada por esta busca constante pelo agradável.

Visama também significa o caminho errado, contrário ao Dhamma (tanto no sentido de ‘ensinamento do Buddha’ quanto no de ‘natureza das coisas’). Assim instáveis, as pessoas sofrem (dukkha) e temem a morte, pois ela pode representar o fim do prazer. Dá para vislumbrar porque temos tanto medo da morte? Alguns escolhem o caminho de ignorar o fato da morte, outros se tornam ansiosos, tomam remédios e mal conseguem dormir diante dos pensamentos de perda e insegurança; e outros, ainda, optam por seitas e doutrinas que lhes assegurem que, no pós-morte, haverá a continuação dos prazeres experimentados nesta vida. Você já escolheu o caminho que seguirá?

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.