Mundos e mundos

Como falei em uma folha anterior, estudar é importante, principalmente quando esse estudo é tal que possa ter uma aplicação prática imediata. Nem sempre quando lemos escrituras conseguimos ter essa visão da relevância prática de um ensinamento. Isso quando lemos as lemos! Nesse fim de semana agora, vamos tentar compreender um pouco o porquê de o Buddha tocar em temas como cosmologia, elementos materiais e mesmo os agregados, que são ditos constituir o ser humano – temas que nem sempre parecem ter uma relevância para nossa vida diária. Por que o Buddha teria tocado nesses temas, já que ele falava que tudo o que ensinava tinha a ver com o sofrimento e o fim do sofrimento?

Desde os primeiros tempos, buddhistas foram fascinados pelos temas cosmológicos. O Abhidharma de todas as escolas explorou os elementos materiais. O Theravada disse que havia cinco reinos de seres sencientes, enquanto o Sarvastivada disse que havia seis. Alguns estabeleceram 31 céus e outros dividiram os reinos infernais em 16, oito quentes e oito frios. Isso significaria que o conhecimento dos planos de existência tem importância para nós? Ou seriam somente resquícios de superstições antigas? O Buddha falou mesmo sobre eles?

Um outro tema fascinante que veremos é a questão da ilusão. Alguns buddhistas dizem que tudo é ilusão. Outros dizem que nem tudo. Alguns dizem que todo o mundo está na mente; o que experimentamos seria tão somente um produto da mente, ou ainda, um produto do karma coletivo. O ‘lá fora’ nem mesmo existiria. Mas, claro, nem todos concordam com isso. Mas não adotar essa opinião implica em necessariamente cair no outro extremo, o do realismo? E o Buddha, afinal, o que disse a respeito? O que realmente é ilusório? O mundo lá fora (ou aqui dentro!) ou nossa experiência dele? Qual é o processo pelo qual a consciência se torna embaraçada nos conceitos e ilusões

Aqueles que tiverem interesse em explorar essas questões, convido para aparecerem aqui e aqui. Notem que dia 1. de abril (terça-feira, e isso não é uma mentira), depois do workshop sobre Dhammapada, falaremos à noite sobre o nascimento na Terra Pura. Acontece que esse é um conceito típico do Buddhismo posterior, comumente chamado de Mahayana. Será que poderíamos descobrir um enlace com ensinamentos do Theravada? O que dois grandes expoentes dessas duas tradições teriam a dizer sobre isso? Esse é um asunto que sempre achei interessante. Afinal, como algo tão diferente do mainstream canônico conseguiu alguma vez se manifestar como parte do Buddhismo? Ou será que essa diferença não era tanta no começo e foi tomando outra forma e rumo mais tarde? Fica então o convite.

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

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