Não-Dualidade

Não-Dualidade I

De uns tempos para cá se tornou comum ouvir dizer que o Buddhismo (ou pelo menos algumas de suas vertentes) é não-dual. Aliás, não-dual virou sinônimo de coisa boa no campo espiritual. Ninguém questiona isso. Não-dual é legal!

Mas poucos param para refletir o que isso significa ou pode significar. Sem ter consciência de tudo o que envolve tal afirmação, ela é introjetada e tornada pessoal; torna-se inquestionável e inquestionada. Uma tentativa recente (1995) de refletir sobre o tema apareceu sob a pena do conhecido monge americano Bhikkhu Bodhi. Como o autor do artigo diz, essa questão é uma “intrincada e sutil problemática”. Em uma de suas afirmações, no tocante à questão de sila, é dito: “No Dhamma dos Ariyas, a distinção entre os dois tipos de conduta, moral e imoral, é rígida e cristalina; e essa distinção permanece por todo o percurso até a consumação do caminho”.

Um questionamento possível é contra o fato da distinção da conduta ser “rígida e cristalina”. Numa visão não-dual, questões de moralidade tem jurisdição apenas nos estágios iniciais do caminho, mas deixam de ter importância nos estágios avançados. Como saber se uma ação é moral ou não no caso de um ser iluminado? E tendo ele atingido o suposto “estágio de não-dualidade”, não estaria ele, por essa mesma razão, acima de tais distinções? “Rígida e cristalina” aparecem aqui como palavras apontando para uma estreiteza de visão, uma incompreensão dos níveis mais “avançados” e “não-duais”. O ser iluminado estaria acima disso tudo e, no mais frequentemente, aqueles bem desejosos de se pensar como estando “quase lá”, estariam também.

Aqui, no entanto, os dois tipos de conduta são distintos não segundo as condutas em si, mas a partir de suas motivações, que é a definição clássica de sila. Como o mesmo autor define duas frases adiante: toda ‘atitude motivada pelo desejo, ódio, ilusão ou temor’ é contrária a sila. E é isso o que é rígido e cristalino. É a distinção que é rígida e não as condutas, separadas de suas motivações. Uma atitude motivada pelo ódio será ‘invariavelmente’ akusalakamma, ação não-saudável.

Nesse sentido, não é correto simplesmente classificar condutas como boas ou más, ou saudáveis e insalubres, mas é preciso observar suas motivações. Não é o caso da aplicação de uma lei rígida de códigos morais, mas uma sutil avaliação das questões motivacionais. Com isso, entretanto, apenas deslocamos o problema, pois … Sobre a Não-Dualidade II

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