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O Buddhismo é elitista?

Pergunta: Por que o Budismo não é tão divulgado na periferia? Aqui temos muitas igrejas evangélicas de garagem que massificam a mentalidade da população, e como morador sinto falta de uma melhor colocação das sanghas. Por esta região temos que nos deslocar muito e isso nos desanima a procurar mais informações! As igrejas católicas e evangélicas possuem um diálogo de massificação de idéias e horizontes, enquanto que vemos que as sanghas se estabelecem principalmente em bairros mais nobres. A “impressão” que tenho é que as comunidades budistas são realmente para pessoas com uma situação finceira mais abastada, talvez eu esteja errado mas nunca vi um templo ou sala sendo estabelecida na periferia.

Resposta: Esta é uma pergunta bastante frequente, e resulta em geral de uma má compreensão de como o buddhismo se estrutura e como é divulgado. Ao contrário de algumas religiões e movimentos espiritualistas, o buddhismo não é proselitista, e isso significa que templos e organizações buddhistas não se dedicam a coletar dinheiro para sustentar pastores/padres/sacerdotes a fim de que eles possam ir pregar nas várias regiões. A expansão do Buddhismo é inversa. Ao invés de pregadores serem formados e sustentados por uma organização a fim de abrir novas frentes de evangelização (que é o método evangelista), os lugares buddhistas surgem apenas quando pessoas da própria região se organizam e aí então requisitam que alguém venha a ensinar.

É importante, então, entender que os vários grupos e centros que existem por todo o Brasil e o mundo, não são frutos de trabalho missionário, de um órgão central que determina quais regiões precisam de buddhismo e aí mandam seus agentes até lá. A maioria dos grupos buddhistas brasileiros aliás, mal e mal se sustenta e não teria condições de sair criando igrejas/grupos, etc., por todas as regiões. De fora, claro, parece que o buddhismo é elitista pois pode não aparecer nas periferias (bem como em outras regiões, cidades do interior, cidades distantes das metrópolis, etc), mas isso parece assim apenas quando se julga o buddhismo a partir de critérios evangelistas com suas igrejas centralizadoras e missionárias. O buddhismo se encontra onde está agora não porque os centros escolhem ficar nos bairros ricos e abastados, mas porque pessoas interessadas em criar algum grupo ou centro são moradores de tais ou quais lugares. Então é um processo inverso do que parece.

4 Comments

  • Thiago Bandeira
    16/04/2016 - 11:31 am | Permalink

    Apenas mais uma coisa:

    existe uma única tradição budista que eu conheci que não cobra pelas práticas. É a tradição Theravada dos monges da floresta. Eles não cobram nada pelas práticas e não “sugerem” contribuição mínimas. Você apenas contribui com o que puder!

    É isso…

    Abraços a todos

    No Dharma!!

  • Thiago Bandeira
    16/04/2016 - 11:29 am | Permalink

    Eu moro em São Paulo, conheço inúmeros centros e templos budistas na cidade. Sou pobre e não tenho condições de pagar pelas atividades, ensinamentos, práticas e retiros que são todos cobrados e muito caros. Isso não me afasta da minha prática, muito pelo contrário, vejo como parte essencial da prática. Da mesma forma que o manto não faz o monge não é o templo que faz o Budismo. O Dharma é verdadeiro dentro ou fora de qualquer templo ou centro budista. Mas concordo com a afirmação de que, no Brasil, o Budismo é sim, extremamente elitista e só serve aos ricos e à classe média; não pelo fato de não haver templos nas periferias, mas pelo fato de os templos no centro e nos bairros de São Paulo se negarem a aceitar em suas práticas aqueles que não possuem dinheiro para pagar por elas. Por isso é elitista sim. Seria como se o Buda, durante os retiros de inverno, em sua época, ficasse na entrada cobrando de seus praticantes. Isso, na verdade nada tem a ver com os ensinamentos do Buda. Os templos distorcem os ensinamentos em função de suas necessidades. Então, em vez de dizer que cobram pelos ensinamentos, eles “sugerem” uma “contribuição mínima”, que não é nada mais nada menos que uma taxa de pagamento! E quando você diz que não tem dinheiro para pagar, mas que quer se dedicar ao Dharma e fazer o bem à todos os seres, eles dizem que então você será bem-vindo numa próxima oportunidade (mas só se tiver dinheiro pra pagar a tal “contribuição mínima sugerida”, que é, na verdade uma taxa obrigatória)…

    Mas podem ter certeza de que chegará o dia em que surgirá o Budismo autêntico no Brasil. Um Budismo de tradição verdadeiramente brasileira, livre, natural e acessível a todos os seres! TODOS OS SERES!!!

    • dhanapala
      17/04/2016 - 10:21 am | Permalink

      Obrigado pela colaboração, Thiago. É verdade que existem alguns centros e grupos que cobram um preço acima do esperado e eventualmente possam impedir a participação em algumas atividades. Entretanto a maior parte dos centros que conheço têm várias atividades gratuitas e geralmente cobram por atividades onde há despesas com alimentação, hospedagem, passagens, etc. O Buddhismo em si não é elitista, mas claro, pode haver alguns lugares que o são. Mas a grande maioria dos grupos em todo o Brasil têm atividades gratuitas ou minimamente cobradas.

    • Eduardo Real
      22/04/2016 - 1:36 am | Permalink

      Também considero que o Budismo no Brasil seja elitista, principalmente nas capitais, e creio que isso seja devido ao desenvolvimento histórico do Budismo em si mesmo e seu desenvolvimento histórico no Brasil. Outros fatores, creio eu, que também contribuem são a intolerância religiosa, o preconceito e a própria estrutura hierárquica das grandes ordens monásticas Budistas. Fora que, convenhamos, Budismo não gera nem promete dinheiro (muito dinheiro como as Igrejas Católicas e Evangélicas prometem, a tal da “Teologia da Prosperidade”), portanto, gera pouco interesse principalmente nas periferias onde existem tantas emergências. Thich Nhat Hanh, Dalai e outros mestres vem apontando a necessidade de levar a todos os seres os ensinamentos e práticas do Budismo, inclusive uma grande vertente do Budismo é o chamado “Budismo Engajado”, qual não anula a responsabilidade social do Budismo. Logo, podemos observar a Internet como veículo difusor, devido ao custo-benefício. Ou seja, a voz de nós, “leigos” ecoando nas redes em busca do Nirvana, já que ainda, principalmente aqui em Sampa, os mestres são tão inacessíveis. E Thiago Bandeira, também acredito num Budismo à brasileira, transbordante de compaixão, qual ainda nossos olhos cheios de ilusão não conseguem ver.

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