suicídio Tibete

O caso dos monges suicidas do Tibete – 5

Depois de sua morte, a tentação de especular o que teria ele feito para atingir o estado de Buddha era grande demais para não ser explorada. As descrições presentes em seus ensinamentos eram complexas e exigentes (pregavam diretamente a cessação da ganância, do ódio e da ignorância). Provavelmente em sua inteireza os ensinamentos apenas eram transmitidos dentro dos círculos de discípulos mais dedicados, em sua maioria, monges. Para estudar com detalhe a Cooriginação Dependente, praticar samatha e vipassana, atingir os estados meditativos requeridos para o conhecimento experiencial, seria necessário passar um longo tempo ouvindo o Dharma (lembremos que a tradição era oral, não haviam livros que alguém pudesse adquirir para levar para casa), e passar prolongados períodos dentro de mosteiros. Tudo isso estava muito além do que a maioria do povo podia se dedicar.

Para o povo, cada vez mais a ênfase era colocada na prática das virtudes, qualidades de doação, generosidade, abnegação, paciência, moralidade, etc., que o próprio Buddha teria tornado perfeitas antes de atingir o Despertar.

Esta foi a época do crescimento dos ensinamentos mais dirigidos ao povo, solidificando a presença buddhista em meio à população. Histórias de fundo moral, ressaltando tais virtudes e com um mínimo de instrução sobre os aspectos meditativos e de sabedoria mais avançada (presentes no cânon e nos comentários tradicionais) vieram à luz nessa época. O Dhammapada, os Jātakas e os Apadanas (Avadanas) se tornam muito populares como meio de instrução, uma forma também de enfrentar a crescente rivalidade vinda dos movimentos devocionais que cresciam no Hinduísmo nesta época.

Paralelamente, mais e mais alguns começaram também a perceber que o atingimento do estado de Arahant não era algo tão simples ou fácil de se realizar. O ideal do Arahant gradualmente foi sendo considerado mais difícil, implicando muitos sacrifícios imediatos, a adoção de uma disciplina estrita demais e um curso de estudo e prática além do que seria possível a um homem comum se submeter. Com o aumento do número de monges, que teve um imenso impulso a partir do patronato do imperador Asoka, a vida dentro do mosteiro também se tornou mais fácil, fazendo com que mesmo muitos monges pudessem passar a considerar os ideais originais muito difíceis. Atingir a iluminação nesta própria vida, ou mesmo em uma próxima, gradualmente foi sendo considerada uma tarefa por demais árdua, possível quando o Mestre ainda estava presente ou seus discípulos imediatos, mas aquelas épocas áureas já podiam ter passado. A possibilidade de gradualmente ir desenvolvendo virtudes, no seu próprio passo e no decorrer de várias vidas, foi cada vez sendo mais tentadora. Uma modificação do conceito original do bodhisattva poderia permitir isso.

2 Comments

  • 11/11/2011 - 10:42 am | Permalink

    Eu não iria tão longe classificando como autoengano, mas que essa foi uma modificação, dentre outras possíveis, que ocorreram em resposta a uma mudança de condições externas, algo comum de ocorrer na história das religiões. Claro, geralmente implica numa mudança de interpretação, ou neste caso algo mais, das escrituras antigas.

  • 10/11/2011 - 6:03 pm | Permalink

    muito interessante esta parte do artigo, dhanapala. a abordagem feita sugere que mesmo os ideais mais sublimes podem esconder sob suas raízes as mais variadas formas de auto-engano…
    muito iluminador.

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