Tibete

O caso dos monges suicidas do Tibete – 8

Os conceitos antigos e os conceitos já modificados em todas essas novas interações com pessoas e sociedades, com suas aspirações, desejos e planos pessoais, foram dando origem a ainda novos sūtras, escritos para lidar com as novas condições. Enquanto que no Vinaya (código monástico) deixado pelo Buddha e preservado pelas escolas antigas, as regras pārajikās indicavam as condições que envolviam a expulsão do monge que incorria em quatro ações (intercurso sexual, roubo, intencionalmente levar um ser humano à morte e mentir sobre a própria realização espiritual), o novo Bodhisattvaprātimokṣa que se apresentava como o código monástico para os que caminhavam na via do Bodhisattva, apresentava como pārajikās o não fazer a doação de ensinamentos e de recursos materiais. Doar e fazer sacrifícios pela divulgação do Dharma se tornaram as virtudes por excelência dos aspirantes a bodhisattva. Um relaxamento das regras monásticas foi favorecido para acomodar as necessidades dos postulantes a bodhisattvas provenientes da nobreza real, enquanto que assegurando que cumpririam seus deveres de suporte da religião.

Mas não apenas passa a haver um relaxamento das regras monásticas, mas o próprio objetivo do caminho começa a se modificar. Tal como apresentado em um dos fundamentais textos do Mahāyāna, o Mahāparinirvāṇa Sūtra, o aspirante do caminho deveria almejar ativamente a vida longa e a prosperidade material. Os motivos para isso são claros, pois esses dois fatores garantem que alguém possa continuar praticando atos de generosidade e apoio à religião por um longo tempo. Ao invés do incentivo em sair do saṁsāra (concebido enquanto o mundo de cobiça, ódio e ilusão) promulgado pelo Buddha e pelas escolas antigas (que implicava levar uma vida de maior simplicidade e contentamento), o novo ideal preconizava que o tempo no saṁsāra (agora concebido como o próprio mundo material das coisas e seres) deveria ser prolongado o quanto fosse possível. O Upāsakasīla Sūtra (um manual Mahāyāna para os laicos buddhistas) chega a dizer que a conquista material não é diferente da conquista espiritual, com a longevidade e a riqueza sendo um resultado do desenvolvimento dos pāramīs (virtudes transcendentais necessárias para a realização do estado de Buddha). Uma das consequências posteriores será a concepção corrompida, mas inextrincavelmente relacionada, de que aqueles que não têm condições financeiras para participarem de ensinamentos de dharma não desenvolveram ainda os pāramīs na medida necessária. Mas isso é uma corrupção posterior. No contexto do Mahāyāna antigo, o objetivo da conquista da riqueza não é de acumulação para si, mas de então revertê-la para o benefício dos seres.

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