Preciosidade da Impermanência

Atualmente estamos estudando sobre “preciosidades da vida” e a cada semana um tópico diferente para refletirmos individualmente e em grupo. São 41 participantes, de várias regiões do Brasil e de Portugal, e entre exercícios, áudios e textos, vários participantes também vão revelando percepções fascinantes sobre temas tão fundamentais que são esquecidos no dia a dia da sociedade contemporânea.

Na semana que passou refletimos sobre a impermanência. A partir do verso Sabbe sankhara anicca. Yada paññaya passati, atha nibbindati dukkhe; esa maggo visuddhiya. ~ Impermanentes são as todas as coisas compostas; quando se vê isso com verdadeiro insight, então o sofrimento é abandonado; esse é o caminho para a purificação ~ quantos insights podemos ter a respeito da impermanência da vida! Alguns olharão para a dor da existência, e a impermanência lhes trará esperança; outros conseguirão vê-la em meio ao ápice do prazer, lembrando-lhes como é fácil inebriar-se e restituindo-lhes a razão.

Ausentar-se de percebê-la leva ao sofrimento. “É comovente como as pessoas se comportam em relação ao seu próprio sofrimento, sua própria dor. Prolongam o martírio para receber algo em troca, seja afeição ou dinheiro. Não se dão conta da impermanência e transformam suas vidas num ciclo de sofrimento“.

Num passeio no parque, no troco com uma balinha de café a ser levada para a esposa, no crescimento dos filhos, numa feira de livro, anicca vai se revelando melhor: “Ainda hoje de manhã, um colega de trabalho partilhou comigo que haverá um evento literário nesse final de semana. Detalhe é que o ingresso para esse evento será entregar um ou mais livros velhos para posteriores doações. Após ouvir a dica do colega interpretei que os ciclos de vidas úteis de alguns livros que tenho guardado estão praticamente terminados (mortos). Enquanto que para outras pessoas será o contrário. Pois elas receberão ‘livros novos’. Conseqüentemente, novos ciclos nas vidas de ambos (livros e pessoas) se iniciarão. Interessante que fatos do cotidiano se revelam lembretes que estamos continuamente cumprindo ciclos“.

O Dharma se revela em tudo. “Descobri também que da impermanência deriva a possibilidade. Por tudo ser transitório e pelo fato de nada ser estático, por conta da impermanência, temos então n possibilidades de tentar de formas diferentes, n chances de experimentar e de ver as coisas de n modos conforme evoluímos e/ou mudamos nossa percepção e isso é absolutamente fantástico!

Um praticante lembrou Mário Quintana com “Existe somente uma idade para ser feliz. Somente uma época na vida de cada pessoa em que é possível sonhar e fazer planos, e ter energia suficiente para realizá-los…“. Vocês sabem como o poema termina?

Já um outro lembrou de “Um índio”, de Caetano: “E aquilo que nesse momento se revelará aos povos, Surpreenderá a todos não por ser exótico, Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto, Quando terá sido o óbvio!“, ao notar a obviedade ignorada da impermanência.

Um outro praticante lembra o ensinamento de Ajahn Buddhadasa sobre uma vida feliz e leve que diz: “É viver de uma forma em que nada é agarrado ou preso. Se vivermos assim as impurezas se tornarão desnutridas e magras. Elas desaparecerão gradualmente até estarem completamente extintas. Abandonou-se o hábito de fazê-las surgir“.

Refletir sabiamente sobre a impermanência leva às lágrimas, causa surpresas, tranquiliza e nos torna mais sábios. Alguém lembrou um conto que termina com a pergunta: “Quando nascemos é como se fossemos jogados de um precipício. Do que adianta se agarrar nas pedras que caem juntas com você?

O estudo apropriado da impermanência leva a ver que “A impermanência me ensina como é importante receber o presente, instante a instante, não formando preferências por nenhum momento em particular. Por um lado aceitando as coisas agradáveis, ciente de que irão acabar, ajuda-me a eliminar o apego e assim aproveitar melhor o que me for oferecido pela as circunstâncias da vida, e por outro lado aceitar o desagradável consciente também que passa, diminuindo assim a personificação do sofrimento. Assim, consigo compreender melhor o não-eu (Anatta), a insubstancialidade de tudo, através da observação diligente da impermanência“.

Um pai com a filha de um ano, tenta perceber “uma novidade a cada dia, um passo mais coordenado, uma palavrinha, um dente a mais, uma gracinha, um barulhinho, e todas as coisas que ela aprende a cada minuto de vida e que vão transformando aquele pequeno ser… Então me preocupo em estar todos os momentos possiveis com ela, com medo de perder alguma novidade, pois a cada dia ela é uma pessoa diferente e quero estar com essa pessoa em todos os instantes, pois sei que estes não voltarão mais. Então…percebo que tudo é passageiro e por mais que amemos as pessoas, “coisas” ou alguns momentos da vida, não devemos condicionar nossa felicidade… se não, dificilmente ela existirá. Encontremos a felicidade dentro de nós mesmos“.

E um avô nota que “Numa dessas noites de céu estrelado e lua cheia, eu estava com meu neto (de seis meses) ao ar livre e lhe apontei a lua (interessante é que ele sempre olha para a direção apontada, ao invés de olhar para o dedo). Ele abriu um grande sorriso, começou a se balançar nos meus braços mostrando sua alegria em ver tal espetáculo. Depois direcionou seus braços tentando pegar a lua. Mas mesmo não conseguindo o que tentava, ele continuava sorrindo e dando pulos de alegria” ~ e conclui brilhantemente que “com tantas e tantas coisas do dia a dia nos comportamos como se não soubéssemos da transitoriedade da existência, ou soubéssemos mas nos esquecêssemos disso. Mesmo sabendo que as coisas passarão, nos comportamos como se elas fossem eternas da maneira que se apresentam naquele momento. Nestes momentos nos comportamos como o meu neto, ou seja, tentamos pegar aquilo que não podemos. A diferença é que, mesmo diante do insucesso, não continuamos felizes como ele“.

Obrigado a todos os participantes que por esses e outros insights nos ajudam sempre e sempre a colocar as mãos juntas em agradecimento ao Dhamma.

Como anicca afeta sua vida? Como ela afeta sua relação com as outras pessoas? Como ela pode ajudar no entrar profundamente na experiência de ser humano?

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

3 Comments

  1. Prof. Ricardo
    Excelente síntese sobre o que foi dito no curso relativamente à impermanencia!
    FátimaC

  2. Ricardo,
    Muit obrigada pelo post! Nunca é demais pensarmos, refletirmos e meditarmos sobre a impermanência. Pela amostra, o curso deve estar sendo maravilhoso.
    Obrigada por compartilhar!
    Abraço,
    Gassho,
    Cris

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