Quantos suttas você possui?


Pensemos na Índia dos primeiros mil anos após a morte do Buddha. Já na época em que o Buddha estava vivo um monge ouviria um ou dois ensinamentos diretamente do Buddha e depois disso ia para uma floresta ou caverna para meditar e refletir sobre esse ensinamento. Se ele fosse um dos monges que acompanhavam o Buddha em suas andanças, teria oportunidade de ouvi-lo mais vezes, receber mais instruções. Mas não era esse o caso da maioria. E o que dizer dos laicos e laicas? Esses talvez ouviriam o Buddha apenas quando ele passasse por seu vilarejo. Se tivessem a sorte de ter algum monge vivendo nas imediações, e um monge que se lembrasse dos ensinamentos que ele mesmo ouviu, então poderiam também receber dele mais instruções.

Nos primeiros séculos, a transmissão do ensinamento era oral. Após a morte do Buddha, a menos que você, seguidor laico ou monge, vivesse perto de um dos grupos de recitação, especializados em decorar os ensinamentos, você teria apenas a lembrança de uns poucos suttas (skr. sūtras).

Com a gradual escrita dos ensinamentos orais a situação imediata não se modificou muito. As cópias davam um imenso trabalho para serem feitas. Se você quisesse ter um sutta em casa teria que copiá-lo, o que pressupunha que primeiro soubesse ler e escrever. A situação era a mesma para os monges. Se você vivesse em um mosteiro, esse poderia manter cópias dependendo de seu tamanho. Obviamente que nem todos os mosteiros tinham uma cópia de todos os suttas ou mesmo de uma parte significativa deles. Daí a importância dos contatos e visitas a outros mosteiros. A forma mais fácil de apreensão dos ensinamentos, então, era sentar-se com um professor, enquanto ele lia (ou recitasse o sutta caso o tivesse de cor) e comentava parte por parte.

Pulando para nosso século, todas as escrituras e comentários das várias escolas, antigas e posteriores, se encontram disponíveis em diversas línguas. Você não precisa mais viajar dias para poder ler um sutta, passar semanas copiando-o (caso quisesse tê-lo mais disponível), ou decorando-o caso não tivesse condições de copiá-lo. Porém, quantos hoje realmente “possuem” um sutta? Quem se dedica a conhecer um determinado texto a fundo, e então integrá-lo em sua vida? Quantos se dedicam a copiar o sutta em seus corações? Mais ainda, os suttas, na verdade, são fórmulas mnemônicas, eles não são ensinamentos expandidos e ‘completos’, mas ‘dicas’ sintéticas a serem expandidos seja pelo contato com os professores que se dedicam a aprendê-los e transmiti-los, seja pela própria reflexão, exercício e estudo do próprio leitor, que se baseia para isso também no contato com uma tradição viva. Suttas são novelos que podem e devem ser desenrolados. Aliás, esse é o sentido literal da palavra sutta (sūtra), ou seja, fio.

Então, enquanto que de um lado se expande a acessibilidade aos suttas, de outro vemos decrescer o interesse no estudo aprofundado, seja sob a orientação de professores, seja na dedicada ascese do estudo solitário, como se a quantidade dos objetos de estudos tivesse o poder de influenciar a qualidade dos sujeitos que deveriam estudá-los.

Fica, então, a pergunta, quantos suttas ou comentários tradicionais vocês ‘possuem’, seja de qual tradição for?

~ Dhanapala

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

4 Comments

  1. Puxa, professor, agora fiquei animado!!

    Eu realmente penso que já “copiei” alguns suttas!! :^o

    Abraços ao amigos do Nalanda!

    Marcelo
    Caxias do Sul/RS

  2. Interessante como nossas mentes são “caprichosas”! Quando temos pouco, seu esforço é muito, no entanto, basta termos um pouco mais, e esta mesma mente já não quer se esforçar…
    É de se admirar que tanto chegou a nós, apesar do tempo e das dificuldades. Se antes já valorizava os ensinamentos, hoje os vejo com mais valor ainda.

  3. excelente como sempre, professor, a pergunta! acho que possuo uma estrofe: “tanto antes como agora eu ensino dukkha e a cessação de dukkha”. todo o restante que entra pelos olhos e ouvidos gira, escava, revolve e aprofunda, na medida da minha capacidade, esta estrofe…

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