Samatha e Vipassanā

por Santikaro

No buddhismo temos duas palavras que são usadas para discutir a prática da meditação. Uma delas é samatha, que significa tranquilizar ou acalmar, e a outra é vipassanā, que é insight ou visão clara. Originariamente essas duas palavras seguiam sempre juntas porém, mais tarde, muitos séculos depois da época do Buddha, elas foram separadas. Nos dias de hoje, temos pessoas que falam sobre meditação da tranquilização e meditação do insight. Isso vem de uma forma de pensar que é muito posterior à época do Buddha.

Originariamente, samatha e vipassanā, a tranquilização e a visão clara, eram praticados conjuntamente. Num dos discursos antigos, o Buddha chama essas duas de “os dois mensageiros velozes”. Por meio da vigilância (mindfulness), esses dois mensageiros reunidos trazem a mensagem do Nibbāna. Assim, de uma maneira bastante interessante nós descobrimos o Nibbāna/Nirvāṇa por meio desta prática conjunta de tranquilização e visão clara.

A visão de que apenas a meditação da visão clara poderia levar ao Nibbāna é uma ideia muito posterior, mas que acabou se tornando o entendimento ortodoxo atual. Infelizmente isso não se encaixa no entendimento original do Buddha. As religiões tendem a ser dessa forma. Minha abordagem particular é voltar aos ensinamentos antigos, enquanto que a ortodoxia moderna é menos importante para mim.

Ānāpānasati desenvolve tanto samatha quanto vipassanā, conjuntamente. Isso deve estar claro quando você pratica meditação aqui. Nossa prática é nos tornarmos mais calmos e  tranquilos. Não é simplesmente no sentido de desfrutarmos da calma, mas também é realizada no sentido de dar um suporte, um sustento, um apoio, para a prática do insight. O insight, por sua vez, também não é simplesmente uma forma de conquistar conhecimento ou entendimento. O insight deve dar um apoio para a tranquilização.

Em nosso mundo moderno, especialmente com a Internet, é fácil entender o porquê. Atualmente podemos encher nossas cabeças com muitas informações que não trazem a tranquilização. Na verdade, isso pode até nos dar mais dor de cabeça e causar mais estresse. Se quisermos utilizar a informação de forma sábia, devemos ver como samatha e vipassanā trabalham juntos. À medida que você medita você aprende a ser mais paciente. Muito frequentemente nossas mentes se esforçam por querer entender muito rapidamente as coisas. Queremos conquistar o conhecimento por termos muitas questões. Esse é o motivo por que a religião consegue tão facilmente enganar as pessoas. Você pode vender para as pessoas respostas fáceis, por que as pessoas estão com pressa. Isso é comum. E inclui o buddhismo também. Se as pessoas estão com pressa, então elas vão acreditar em muitas coisas, mas se entendermos que o insight segue junto com a calma, então também poderemos aprender a ser calmos e pacientes.

Podemos pensar na árvore da iluminação. O despertar é como uma árvore que vai crescendo vagarosamente. A calma é como a chuva. O insight é como o sol. Existe o solo que é a fé. Então, pense simplesmente numa árvore que cresce vagarosamente. As pessoas vêm para retiros de meditação e querem que as coisas aconteçam rapidamente. Elas olham para os seus relógios e pensam: “Ah! só tenho dois dias”. Então, claro que nada acontece ou, então, o que acontece são frustrações e sofrimentos, mesmo em dez dias. É bastante imprevisível se as coisas vão acontecer rápida ou vagarosamente. Então, permita que samatha e vipassanā ocorram conjuntamente e, quando o tempo apropriado chegar, a mensagem será recebida.

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *