Sendo bons no Zen

Um dos problemas que o zen enfrentou desde sua entrada no Ocidente foi a questão da moral, já que alguns de seus proponentes parecem explícita ou implicitamente colocar um desvalor no comportamento moral. Apesar de tradicionalmente samadhi (a prática de concentração e meditação) ser colocada conjuntamente com sila (comportamento moral) e panna (sabedoria, skr. prajna), particularmente no zen ocidental isso é esquecido. É parte das diluições a que nos referimos anteriomente. É, assim, um alívio ver o patriarca zen Huineng mencionar a importância do bom comportamento para a prática da meditação e atingimento da sabedoria:

Virtuosa Audiência, em meu sistema (Dhyana) Samadhi e Prajna são fundamentais. Mas não fiqueis sob a errada impressão de que estes dois são independentes um do outro, porque eles são inseparavelmente unidos e não duas entidades. Samadhi é a quintessência de Prajna , enquanto Prajna é a atividade de Samadhi. No mesmo momento que atingimos Prajna Samadhi está presente; e vice-versa. Se vós entenderdes este princípio, ireis entender o equilíbrio entre Samadhi e Prajñā. Um discípulo não deveria pensar que existe uma distinção entre ‘Samadhi gera Prajna’ e ‘Prajna gera Samadhi ’. Sustentar tal opinião implicaria em considerar que existem duas características no Dharma.

Para aqueles cujas línguas estão preparadas com boas palavras mas cujos corações estão impuros, Samadhi e Prajna são inúteis porque estes mutuamente não se equilibram. Por outro lado, quando somos bons tanto na mente assim como nas palavras, e quando nosso comportamento externo e nossos sentimentos internos harmonizam-se entre si, então temos o caso de equilíbrio entre Samadhi e Prajna“.

– Sutra da Plataforma, VI. Patriarca Hui Neng, trad. Cláudio Miklos, © Edições Nalanda, 2009

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.

3 Comments

  1. Pois é. Também atribuo isso às influências “hippies”. Isso se aliou à confusão o que criou um terreno propício para aqueles que queriam combinar o zen com suas próprias atitudes e desejos. Felizmente uma nova liderança tem surgido, dando esperança para o futuro do zen no país. Obrigado pela participação!

  2. A prática inicia pelos preceitos, talvez essa influência citada deva-se ao interesse inicial dos movimentos alternativos pelo zen.
    Dá realmente trabalho explicar que o zen não é hippie nem anarquista e que disciplina e hierarquia são importantes no seu treinamento, muitos que chegam com idéias libertárias se chocam com as instruções aos monges noviços nos mosteiros zen tradicionais: “cale a boca e limpe o chão”. Na verdade, no oriente, ser ordenado monge noviço significa pouco mais que um zero à esquerda e sua prática é pura disciplina e obediência aos mais velhos.

  3. Às vezes os alunos (eu inclusive) confundem equanimidade com indiferença, e moralismo arbitrário com virtude natural; talvez daí surja essa certa desvalorização da prática de sila.

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