Shinran & Jobs

As folhas de ontem poderiam, num olhar menos atento, dar a impressão de que então devemos ficar alegres nas ‘boas’ situações ‘ e tristes nas ruins. Mas isso seria um engano. Ontem foi falado da inadequação das palavras e reações diante das situações. É inadequado, por exemplo, conversar sobre coisas ‘alegres’ num enterro (apesar de que seja isso que ocorra muito frequentemente em alguns). Isso não quer dizer entretanto que situações difíceis devam ser recebidas com olhar tristonho. É aqui que entra o olhar contemplativo, aquele olhar que considera, por exemplo, a impermanência e a necessária decadência de todas as coisas condicionadas, permitindo uma nova atitude diante das coisas da vida, ‘boas’ e ‘más’.

Aquele que praticam segundo a escola da Terra Pura, por exemplo, sabem muito bem que Hônen foi exilado e muitos de seus discípulos seguiram o destino de seu mestre, sendo também exilados em diferentes partes do Japão. Shinran foi um deles. Diante do isolamento, privação e das condições muito difíceis, Shinran (na pintura ao lado) não foi tomado pelo desespero. Em Denne, uma das biografias clássicas, ele revela como viu a situação:

Se o grande Mestre (Hônen) não tivesse sido exilado, eu não teria sido mandado para meu lugar de exílio. Se eu não tivesse sido exilado, como eu poderia ser capaz de ensinar as pessoas desta remota área (o caminho do Nembutsu)?

Em um outro exemplo completamente diferente, mas portando a mesma marca de ver as situações difíceis sob um ângulo da oportunidade, temos a descrição de Steve Jobs, o fundador da Apple, da Pixar e criador do MacIntosh, nesse interessante relato de seus primeiros anos. Para se pensar é sua idéia de ‘conexão de pontos’:

Again, you can’t connect the dots looking forward; you can only connect them looking backwards. So you have to trust that the dots will somehow connect in your future. You have to trust in something — your gut, destiny, life, karma, whatever. This approach has never let me down, and it has made all the difference in my life.

cujo relato acaba tocando na ‘mente de iniciante’, uma atitude de não desistência, a contemplação da morte, e mesmo o engraçado raciocínio de como ser despedido da Apple colaborou para que fosse readmitido na Apple e encontrasse uma esposa.

Apesar de exemplos tão diferentes, Shinran e Jobs têm algo em comum: amavam o que faziam.

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.