Sobre a paciência

Sobre a paciência-ricardo-sasaki

Na semana passada falei aqui sobre o lugar da fé no caminho buddhista. O tema de hoje será a paciência (khanti). É claro que desenvolvermos a paciência é algo bom para nossa vida diária, afinal lidar com aquele vizinho irritante, com o atendente de seu serviço de celular, com os filhos pulando no sofá quando você tem que entregar aquele trabalho essencial amanhã de manhã, só mesmo com paciência, não? Mas o que a paciência efetivamente poderia colaborar quando passamos a seguir as instruções do Buddha e almejar o que elas apontam?

A paciência é dita ser “a arma invencível daquele que é bom a fim de desenvolver as qualidades nobres, pois dispersa a raiva que é o elemento que se opõe a todas as qualidades”. Raiva aqui abrange todos os tipos de irritações, e quando estão presentes na mente não é possível o cultivo de qualquer qualidade saudável. Thanissaro Bhikkhu, um monge theravāda contemporâneo, nos lembrasobre um ensinamento dado pelo Buddha ao seu filho Rāhula:

Ele começou [as instruções sobre meditação] com a questão da paciência. Medite, disse ele, para que a sua mente seja como a terra. Coisas horríveis são atiradas na terra, mas a terra não fica repugnada por causa delas. Quando tornar a sua mente como a da terra, tanto impressões sensoriais agradáveis quanto desagradáveis não tomarão conta dela. Agora, o Buddha não estava falando para Rāhula se tornar um pedaço de terra passivo. Ele estava ensinando Rāhula a ser esclarecido, a desenvolver suas habilidades de persistência, a fim de que ele pudesse observar os eventos dolorosos e prazerosos em seu corpo e mente, sem ficar absorto nos prazeres ou derrotado na dor. É para isso que serve a paciência. Ela lhe ajuda a se sentar com as coisas até que você as compreenda suficientemente bem para responder a elas habilmente”.

Sendo a paciência tão importante, devemos buscar o que dá energia a ela. A paciência é fortalecida pela reflexão de que o mundo sofre devido às ações dos seres desprovidos de paciência e sem ela a mente não consegue se concentrar apropriadamente. Portanto paciência precede a concentração. Começam a entender porque a paciência é importante para a meditação?

Pois bem, a causa próxima da paciência, segundo a psicologia buddhista, é ver as coisas como elas são (em pāli: “yathābhūtadassana”). Ver as coisas como elas são nos permite ver o sofrimento dos seres bem como todos os estragos que provêm da raiva. Por isso decidimos cultivar a paciência. A paciência concentra a mente, e uma mente concentrada percebe melhor a impermanência, o sofrimento e tudo o mais que é importante. A sequência apropriada de desenvolvimento é, então, assim: yathābhūtadassana => khanti (a paciência) => samāhita (a mente concentrada) => percepção de todas as coisas condicionadas como impermanentes e insatisfatórias, todas as coisas como não-eu, o nibbāna (skr.nirvāṇa) como incondicionado, imortal, pacífico e sublime, e as qualidades do Buddha como dotadas de potência inconcebível e imensurável.

A passagem inteira em pāli se encontra aqui: “khantiyā ca sati bahiddhā vikkhepābhāvato samāhitassa sabbe saṅkhārā aniccato dukkhato sabbe dhammā anattato nibbānañca asaṅkhatāmatasantapaṇītatādibhāvato nijjhānaṃ khamanti buddhadhammā ca acinteyyāparimeyyappabhāvā” ~ Cariyāpiṭaka, Yudhañjayavaggo Pakiṇṇakakathā.

A “visão das coisas como elas são” é um fator causal da paciência, mas isso é adquirido apenas por aqueles que desenvolvem a vigilância (sati) e a concentração (samādhi) e, sendo assim, podemos concluir que o sétimo e o oitavo fator do nobre caminho óctuplo são os que de forma mais direta levam ao desenvolvimento da perfeição da paciência (khanti pāramī). Notemos como o movimento é circular, com fatores que anteriormente sustentaram um elemento, aparecendo novamente na frente como consequência do mesmo elemento. A paciência é uma virtude que aparece tanto na lista Theravāda quanto na lista Mahāyāna dos pāramitās, e agora podemos ver com clareza porque isso é assim.

dhanapala

Este é o blog pessoal de Ricardo Sasaki (Dhanapala), psicoterapeuta, palestrante e professor autorizado na tradição buddhista theravada e mahayana, tradutor, autor e editor de vários livros, com um grande interesse na promoção e desenvolvimento de meios hábeis que colaborem na diminuição real do sofrimento dos seres, principalmente aqueles inspirados nos ensinamentos do Buddha. Dirige o Centro de Estudos Buddhistas Nalanda e escreve no blog Folhas no Caminho. É também um dos professores do Numi - Núcleo de Mindfulness para o qual escreve regularmente. Para perguntas sobre o buddhismo, estudos em grupo e sugestões para esta coluna, pode ser contactado aqui.