diligência vigilância

Steve Martin e a Diligência

Na última quarta começamos mais uma Leitura Guiada. As Leituras Guiadas são experiências de trazer a leitura de materiais buddhistas para o ambiente virtual onde a leitura possa ser feita em grupo e com orientação. Nesta semana começamos a tratar do tema da “diligência” com base no segundo capítulo do Dhammapada. A diligência é uma coisa fundamental no caminho e não é à toa que as últimas palavras do Buddha antes de morrer foram exatamente a respeito do cultivo dessa virtude. Diligência é cuidado, zelo, atenção vigilante constante.

O comentário de um dos livros do Cânon diz o seguinte sobre aquilo que é o oposto da diligência:

Então, o que é a negligência? O abandono, o abandono e desistência, da mente em relação à má conduta corporal, verbal ou mental, ou em relação aos cinco veios dos sentidos, ou ainda, a atividade descuidada, a atividade não perseverante, a atividade intermitente, o hábito de se conter (‘ficar com um pé atrás’, não colocar toda energia em algo), colocar de lado o almejar, colocar de lado a tarefa, não perseguir, fracasso em fazer surgir, fracasso em fazer crescer, falta de resolução, falta de propósito, negligência, no que se refere ao trazer à existência os estados habilidosos; qualquer negligência (pamado) negligenciar, descaso, tal forma é tomada como negligência.

Dois anos atrás, o famoso comediante americano Steve Martin publicou sua autobiografia chamada “Born Standing Up“. Seu interesse principal não foi o de relatar fatos de sua bem sucedida carreira, mas sim como alcançou o sucesso. Estando interessado na tecnologia do sucesso e não nos resultados, suas descobertas se tornam mais interessantes para nós, pois de nada adianta sabermos o que queremos realizar se não soubermos como realizar. E isso pode ser aplicado em todos os campos da atividade humana e não apenas na carreira artística. Cal Newport sintetiza as sugestões de Steve Martin em dois pontos: 1. busque a essência e 2. não disperse.

Steve Martin nunca se cansava de buscar a essência do que é ser engraçado, tentando inovar, compreender, testar o que funcionava e o que não funcionava. É aquele impulso fundamental de não se acomodar e sempre tentar compreender mais sobre a habilidade ou campo a que você se dedica.

Nosso tema da diligência entra na segunda sugestão: não disperse. Cal Newport sumariza assim: “O que ele realmente queria dizer é permanecer diligente en seu interesse naquele único campo|tema em que tentava atingir a maestria; ser capaz de ignorar o impulso em começar a trabalhar em outros projetos ao mesmo tempo“. Isso não tem uma grande importância para nosso tema da diligência? Não foram essas duas dicas que Steve Martin captou na reflexão de sua carreira que também o Buddha seguiu fielmente? “Se você não saturar sua vida em uma única busca“, diz Steve, “você diluirá seu foco a um ponto em que se tornar notável ficará para além do alcance“.

Nesse caminho em que trilhamos é preciso diligência. O Buddha define diligência (appamada) como a aplicação constante da vigilância (sati). Claro, há muitas áreas a serem estudadas e praticadas, mas todas giram em torno de uma atitude comum. E se não saturarmos nossa vida nessa direção, nada de muito significativo resultará. E não é muito diferente do resto de nossa vida. Profisssão, relacionamentos, vida social, compreensões intelectuais, em qualquer campo que almejemos resultados, isso irá pressupor dedicação, zelo atencioso, diligência.

Última dica de Steve Martin: “Esqueça todas as frustrações, truques para o sucesso e preocupações. Apenas foque em se tornar bom. Realmente muito bom“. E Cal complementa: “Se você não estiver 100% convencido e disposto a se dedicar a algo, potencialmente por anos, à exclusão das centenas de interessantes novas idéias que irão pipocar ao longo do caminho, você provavelmente irá amornar bem antes de colher qualquer recompensa“.

4 Comments

  • 15/09/2010 - 11:54 pm | Permalink

    Genial, li parceladamente, muito ao natural, agora estes comentários, também quero celebrar. O cara é bom mesmo, e o toque de “caminho”, então, excelente, me lembra também o David Lynch, que em seu “Em Águas Profundas: Criatividade e Meditação” também abriu cortinas para luminosidades brilhantes, com o perdão do pleonasmo (cinematográfico escapando ao ordinário do meio farcesco ou denuncista)abçs

  • 12/09/2010 - 3:04 am | Permalink

    Quem não deu boas risadas com esse ator, o poeta tb finge que é feliz, a felicidade que deveras sente rs

  • Daniel
    11/09/2010 - 3:15 pm | Permalink

    Esse tema é muito interessante. Lembrei do exemplo de Gandhi e Mandela: toda a transformação que conseguiram realizar foi devido a sua firme e constante dedicação.

  • Anonymous
    11/09/2010 - 12:17 pm | Permalink

    Ricardo, gosto muito de seus textos e de suas aulas, pois você vai logo ao que interessa, foca no essencial! Outro aspecto de que estou gostando muito neste curso sobre o Dhammapada são as sujestões para aplicação prática (desculpe-me o pleonasmo) do conteúdo em nosso cotidiano. Muito bom isso!
    Imaculada

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