O simbolismo materno nas estepes russas

Continuando com o relato do 3º Fórum Buddhista Internacional que ocorreu entre 25–28 de setembro de 2025, em Elista, República da Kalmykia.

O dia começou com o café da manhã servido ao som da própria reportagem nacional sobre o fórum — Kalmykia entrando nas casas de milhões de russos antes mesmo de eu sair do hotel. Saímos do hotel sob um céu de estepe, em direção à Arena Oyrat. Lá dentro, às 9h30, começaria a sessão “História do Buddhismo em Países Asiáticos” — e, com ela, minha vez de falar.

Esse tema baseiou-se na ideia de que a história do buddhismo na Ásia é a história de um amplo diálogo intercultural, durante o qual os ensinamentos buddhistas foram ativamente transformados e adaptados às realidades locais, influenciando enormemente as culturas desses países. O buddhismo provou-se um poderoso fator civilizacional que uniu uma vasta e diversa região. Assim, o objetivo da discussão foi de explorar as tendências e perspectivas para um aprofundamento e desenvolvimento futuro do diálogo entre as comunidades buddhistas na Ásia.

A sessão foi moderada por Aleksandr Yakovenko, vice-diretor geral do grupo de mídia Rossiya Segodnya, e teve como participantes: Elza Bakaeva, vice-diretora de pesquisa do Centro Científico Kalmyk da Academia Russa de Ciências; Firuz Ulmasov, doutor em artes e professor do Instituto Tajik de Cultura e Artes; Kin Phea, diretor-geral do Instituto de Relações Internacionais do Camboja, Academia Real do Camboja; Ranjana Mukhopadhyaya, professora sênior da Universidade de Delhi e especialista em estudos do Extremo Oriente; Ricardo Sasaki, professor e diretor espiritual do Centro de Estudos Buddhistas Nalanda do Brasil; e Ulyana Strizhak, professora associada do Departamento de Economia Mundial e Assuntos Internacionais, coordenadora Acadêmica do Programa de Estudos Asiáticos da HSE”.

Minha apresentação foi sobre “As Muitas Mães do Buddha: o Simbolismo Materno na Narrativa Histórica Buddhista”, em que propus o simbolismo materno como um fio de união perpassando culturas e tradições. Eis um resumo: “Este artigo/apresentação examina as múltiplas representações da maternidade na literatura buddhista e sua relação com o desenvolvimento espiritual do Buddha dentro do discurso histórico buddhista. Por meio de uma análise textual de fontes canônicas tanto das tradições Theravāda quanto Mahāyāna, exploramos como a imagem materna transcende as relações biológicas para articular conceitos filosóficos fundamentais sobre sabedoria, nascimento espiritual e a própria natureza do despertar. O estudo traça uma progressão simbólica que vai da maternidade biológica de Māyādevī, passando pelo papel duplo de Mahāpajāpatī Gotamī como mãe adotiva e filha espiritual, até o Dhamma como mãe primordial, culminando em Prajñāpāramitā como a “Mãe de todos os Buddhas”. Essa análise revela como as metáforas maternas funcionam como veículos de expressão para conceitos soteriológicos complexos — especialmente a transformação da linhagem mundana em linhagem espiritual e o caráter gestacional do desenvolvimento da sabedoria. A pesquisa contribui para a compreensão do simbolismo de gênero no pensamento buddhista e ilumina as estruturas filosóficas sofisticadas que fundamentam elementos aparentemente narrativos nos textos buddhistas.”

Várias sessões se seguiram pela tarde. Ao final do dia fomos presenteados com um festival de artes marciais, com apresentações de diversos estilos, alguns dos quais eu nem tinha ouvido falar como o Vovinam Viet Vo Dao do Vietnã, e o Lethwei, o box birmanês. A apresentação foi ao ar livre e durou horas, e estava um frio imenso! Foi difícil saber qual cortava mais, o vento congelante da estepe russa ou lâmina das espadas. Fiquei com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco emprestado e envolvido num cobertor convenientemente disposto no assento. Para esquentar, terminamos o dia, já quase pela meia-noite, com um lanche no Saṃsāra!

Até o ator hollywoodiano Mark Dacascos, faixa preta em Wun Hop Kuen Do esteve presente
Só o Saṃsāra fica aberto tarde da noite 🤗