Da Alegria, das Folhas e de Todo o Resto

Comentando o Mais e Menos, o Luide disse: “…como as folhas que crescem e caem. Como entendê-las? Não deixar os caminhos cheios do que acaba por pesar em nós? E nos alegrarmos em saber, de fato, que não há felicidade no mundo?” Pois é, Luide, como as folhas que crescem e caem. Num momento tudo pode parecer correr bem; noutro, tudo se dilui. Existe até uma certa beleza em ver como planos, situações, pessoas e idéias, se diluem, não? Há qualquer coisa de libertador nisso, independente do tipo de ações habilidosas ou não que causam as mudanças. Quando as folhas crescem, muitos começam a fazer planos do que farão com os frutos da árvore que se inicia: as compotas, o distribuir aos vizinhos, os picnics à sombra da árvore. Então vem um daqueles raios, destrói a árvore, causa algumas queimaduras leves nos que estavam passando por lá, ou as condições mudam, a seca vem, o sol castiga e a árvore mal começada deixa de ter condições de continuar. E já não há mais compotas, vizinhos e picnics.

Mas será que alguma vez eles existiram realmente? O doce sabor da geléia, o convívio harmonioso e sadio no distribuir dos frutos da árvore, os picnics com suas toalhas e cestas… existiram realmente ou foram somente figmentos da imaginação naqueles que contavam com a árvore antes dela crescer?

A “alegria em saber, de fato, que não há felicidade no mundo” é uma frase poderosa no Buddhismo. Baseados em nossa busca de felicidade pessoal, pensamos, falamos e agimos, movendo as peças do quebra-cabeça do mundo para que se encaixem de acordo com nossos sentimentos. Somos livres, não somos? Deveríamos buscar nossa felicidade pessoal, não deveríamos? O chefe de família que alegremente passa duas horas lavando seu carro fica contente em ver seu carro limpo. Suas boas intenções lhe dizem que está no caminho certo. Claro que ele não vê que a água que ele desperdiça é parte de uma rede maior. Que ele está conectado aos vizinhos, ao povo de sua cidade, ao mundo. Sempre me causa surpresa quando lá pelas 11 da noite (ou quem sabe mais tarde) alguém estaciona na rua com seu toca cd ligado no máximo, acordando toda a vizinhança. Não me causa raiva, mas estupefação! Provalmente o rapaz está com a melhor das “boas intenções”, curtindo seu som, suas companhias, seu carrão. As tais “boas intenções” tem esse incrível poder de obscurecer a consciência de que ninguém vive separado.

Quando percebemos que “de fato, não há felicidade no mundo“, nossa felicidade pessoal torna-se parte de uma rede muito maior. Já não achamos que devemos seguir nossos instintos de felicidade pessoal a todo custo. Cuidamos de nossa rede. O chefe de família pensa na água antes de abrir a torneira por duas horas; o rapaz reavalia suas opções de prazer auditivo quando em via pública. Percebemos que não há compotas nem picnics antes de acontecerem, e que sair catando todas as folhas que caem é somente mais uma carga, um peso. Planos, situações, pessoas e idéias que caem e passam. Bharadanam dukkham loke, dizia o Buddha, “Carregar tais pesos é sofrimento neste mundo”.

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