A primeira vez que entrei em contato com o xamanismo foi nos anos 80 por meio do clássico livro de Mircea Eliade: El Chamanismo y las Técnicas Arcaicas del Éxtasis, uma tradução mexicana de 1976 do original francês de 1951. Lá ele introduz o tema das técnicas arcaicas de contato com outros mundos, em que o xamã, por meio de treinamento, dom, ervas e diversos rituais iniciáticos (que incluem música, jejum e danças, por exemplo), é capaz de descer aos mundos subterrâneos ou subir aos céus a fim de encontrar significados profundos, realizar curas, conversar com espíritos da natureza. Eliade traçava as origens do xamanismo na Sibéria e na Ásia Central, e de lá teria se expandido para regiões da Indonésia, Tibete, China e Américas.
Na mesma época lembro de ter assistido ao filme Dersu Uzala de Akira Kurosawa, que me causou grande impacto. Dersu Uzala era um caçador das regiões da taiga do Extremo Oriente russo. Ele não era um xamã, mas o filme retratava o mesmo mundo mágico de solidão e comunicação íntima com os espíritos da natureza, em que esta era entendida como possuidora de vontade própria, onde vento, rios, árvores e animais eram sagrados e conversavam diretamente com o mundo humano. “Tudo está dito na hierofania mais elementar: a manifestação do sagrado em uma ‘pedra’ ou em uma ‘árvore’ não é menos misteriosa nem menos digna que essa mesma manifestação em um ‘deus’. O processo de sacralização da realidade é o mesmo; somente difere a forma tomada por este processo na consciência do homem”, dizia Eliade. O mundo humano mudou, esqueceu e se distanciou irremediavelmente da natureza – tudo muito bem retratado por Kurosawa no encontro de Dersu Uzala com um capitão do exército russo nas áridas estepes siberianas.
Dersu era um caçador da etnia Nanai, um povo tungústico da Sibéria. Tuva (cf. Amanhecendo em Tuva) também foi povoada por povos turco-mongóis, e ambos compartilham tradições xamânicas, valorizando o respeito aos espíritos e animais da natureza, de onde derivam sentido, cura e renovação. Entre os séculos IX e III AEC (Antes da Era Comum) o território tuvano viu o florescimento da cultura cita (do latim Scythae – inglês Scythians – de Skuδa, que significa literalmente “arqueiros”), uma cultura guerreira fortemente associada à cavalaria, ao nomadismo e a uma arte chamada “animalística”. Tuva foi um dos centros mais importantes da cultura cita na Ásia Central, e às margens do rio Uyuk se localizava o “Vale dos Reis”, onde monumentos muito antigos e grandiosos foram encontrados e muito ouro foi descoberto pelas equipes dos primeiros arqueólogos. Um monumento chamado “O Centro da Ásia” foi erguido na região onde 50 quilos de ouro foram encontrados e, segundo alguns, ele estaria no centro geográfico da Ásia.
Nessa mesma região da foz do rio Uyuk apareceram os primeiros kurgãs, enormes construções funerárias (vimos exemplares, fotos e esboços delas em nossa visita ao Museu Nacional). Os kurgãs são um tipo de “túmulo em forma de montículo” construído sobre uma sepultura. A palavra tem origem turca/turcomana, e em alguns dialetos (quirguiz, cazaque, uigur) chegou a significar “fortificação” ou “castelo”, mas no uso histórico-arqueológico russo ela designa um monte de terra e pedras que cobre uma ou mais sepulturas. Heródoto (IV, 71 e segs.) descreve os ritos funerários citas com precisão, incluindo o uso de cannabis nas ‘tendas de vapor’, o que me remeteu ao tempo em que participei de uma cerimônia de “Sweat Lodge” dos indígenas norte-americanos na Califórnia dos anos 80, sem cannabis, mas com muitas pedras quentes, vapor, cânticos e rituais.
Kurgãs e as cerimônias fúnebres dos citas e das culturas xamânicas euroasiáticas estão estreitamente relacionados às concepções pós-morte em que as almas dos que faleceram devem trilhar um certo caminho estreito. Kurgãs não são apenas túmulos, mas também lugares sacerdotais em que sacerdotes-xamãs exercem sua função de intermediação entre mundos. Numa tradição iraniana, que tem várias semelhanças com a cultura cita-siberiana, os que falecem dirigem-se ao ocidente, à terra do sol poente, e lá devem enfrentar uma luta entre os demônios e os espíritos protetores, os primeiros desejando jogar as almas no inferno e os últimos protegendo-as. Em outras interpretações, os que falecem devem passar pela Ponte Chinvat, onde suas ações são julgadas. Os xamãs, como técnicos do êxtase com livre passagem pelos mundos, poderiam ser vistos como guias nessa travessia. Eliade cita Aristát (Arshtat) e Vayu como espíritos que protegem os seres humanos que se comportaram valorosamente, e por isso são invocados pelos parentes dos falecidos para que os protejam. É impossível deixar de relacionar isso com o culto a Amitābha no buddhismo, o qual é colocado para presidir justamente a Terra Pura do Ocidente e recebe o fiel amidista quando falece.
No Museu que visitamos aprendemos que “o período cita no território de Tuva abrange o tempo do século IX ao III a.C. Em seu desenvolvimento, os pesquisadores distinguem várias etapas. A etapa inicial (séculos IX–VI a.C.) está ligada ao aparecimento dos primeiros kurgãs “reais” e à formação das características principais da cultura cita. A etapa tardia (séculos V–III a.C.) caracteriza-se pelo desenvolvimento e complicação das tradições funerárias, pelo florescimento do estilo animalístico e por amplas conexões culturais. O estilo “animalístico” cita-siberiano estava espalhado por todo o território da Sibéria. Seus elementos principais eram o “animalismo” — a frequente representação de animais belos e graciosos (cervo, javali, cabrito-montês — arhar, e pantera ou leopardo)”.
O maior dos kurgãs encontrados é o Arzhan-1, com 120 metros de diâmetro e 4 metros de altura, estudado entre 1971 e 1974 sob a direção de M.Kh. Mannai-Ool e M.P. Gryaznov. “Ele contém um caixote central de madeira e cerca de 70 câmaras funerárias. No total, foram descobertos restos de 16 pessoas e cerca de 160 cavalos no kurgan. Também foram encontrados enfeites de ouro e prata, armas, adornos e arreios de bronze para cavalos, o que permitiu olhar de forma nova para a história antiga dos citas”. Numa das seções do Museu Nacional de Tuva, preciosas joias e artefatos de ouro puro são expostos. A fotografia é proibida nessa seção em particular. São belíssimos, um trabalho altamente refinado de produção de peças delicadas em ouro, resultando em joias, coroas, colares e dezenas de diferentes artefatos.
Não há uma estatística oficial confiável, mas minha impressão vinda das conversas e observações em Tuva me pareceu que xamanismo e buddhismo ocupam uma proporção igualitária na população, com o cristianismo ortodoxo ocupando um distante terceiro lugar com uns 5%, seguido principalmente pela população russa de outras regiões que se radicou lá nos tempos mais recentes – ao lado de nosso hotel havia uma bela igreja ortodoxa. Para a população etnicamente tuvana, buddhismo e xamanismo não são mutuamente excludentes, da mesma maneira que buddhismo e xintoísmo não são para a população religiosa do Japão.




