Três chinesinhas

Todas em escadinha, talvez três, quatro e cinco anos de idade. A mãe, muito simpática — contrastando com a senhora, diríamos carrancuda, ou somente cansada, provavelmente a avó das meninas, que está ao lado segurando forte uma delas — mistura chinês e português na sua fala, ora com as garotinhas, ora com as atendentes.

Todos na fila deixam a turma passar. São umas gracinhas, bem ativas — com o que se quer dizer que correm em direções variadas, choram, berram, fazem birra — e tudo isso às três da manhã. Será um voo interessante, penso eu.

As garotinhas já estão lá, nas poltronas, no corredor, em cima das poltronas, em cima da mãe, da vó, das malas. Não é fácil por ordem em meninas ativas e animadas, e a fila para chegar aos assentos situados depois do congestionamento aumenta.

Mas parece que é bem menos fácil ainda para aqueles que já estavam naquela seção e que estavam dormindo. Pessoas que estavam vindo de Santiago e, parando em Guarulhos, aguardavam dentro avião, adormecidos, pois, lembre-se, eram quase quatro da manhã. Sabe como é acordar com gritos? Olhares sonolentos, ora raivosos, ora indignados, ora provavelmente se perguntando como essa mãe não consegue impor silêncio e ordem, e numa hora dessas! Absurdo! Aquela incompreensão que vem dos que nunca tiveram filhos ou que já faz tanto tempo que esqueceram.

No buddhismo é falado que há quatro qualidades da mente que nos aproximam de como divindades vivem lá nos altos céus. A condição para o despertar da compaixão é a visão do sofrimento. Visão aqui não é simplesmente ver, mas…realmente ver. Então o obstáculo o insuperável é a falta de empatia. Se ao ver o sofrimento nos sentimos irritados e aversos, é porque o botão da empatia está desligado da tomada. Meio que algo muito comum atualmente, não?

A não violência (ahimsa) e a compaixão (karuna) são inseparáveis do estado de consciência plena conhecido como mindfulness (sati, vigilância). Na falta da capacidade de entender o sofrimento do outro surgem raiva e indiferença.

Mas não deveria ser tão difícil compreender a situação de uma mãe, às quatro da manhã, com três garotinhas bonitinhas e ativas, com malas e tanta animação. Nós mesmos já fomos tão animados quanto as chinesinhas. E nossas mães e pais tiveram que lidar, por tantas vezes e sob os olhares raivosos, indiferentes e indignados de muitos estranhos, com nossa atividade birrenta. Não dá pra falarmos que não conhecemos a situação.

Então, o que há conosco? Por que há tanta falta de compaixão no mundo? Tanta irritação. O que é preciso? Alguma sugestão? 🤔

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