
Originariamente, o que chamamos de buddhismo é um treinamento, não uma religião. Ele propõe a situação em que os seres humanos estão, para onde deveriam ir, e o que fazer efetivamente para chegar lá. Esta última proposição é o treinamento, algo que deve ser feito, e não apenas aceito, acreditado ou louvado. É o que deve ser feito. Sīla é disciplina dos comportamentos físicos e verbais, porque é através deles que alguém se relaciona com os seres. Samādhi é disciplina mental, controle da mente, das intenções, dos desejos. Paññā (sabedoria) é a disciplina cognitiva: compreender o que há de errôneo nos pensamentos e concepções. Esses três são conhecidos como Tríplice Treinamento no buddhismo.
Um grande problema de ler livros traduzidos sem uma base do vocabulário técnico do buddhismo é que uma mesma palavra original pode aparecer sob diferentes traduções, e o leitor corre o risco de achar que se está falando de coisas diferentes. Sīla (um dos elementos do Tríplice Treinamento) pode ser traduzida como ética, disciplina, virtude ou moralidade, todas essas são apenas modos que os tradutores escolheram. Não é difícil perceber que cada uma dessas palavras podem alterar significativamente o entendimento de alguém quando apresentadas isoladamente. Sendo assim, um conhecimento básico de vocabulário técnico é importante.
Em geral, sīla se refere a ações realizadas em relação ao ambiente e a outros seres. Pensar em machucar alguém — nessa classificação detalhada do buddhismo — não é uma questão de sīla. É um problema de samādhi (cultivo e cuidado mental) e de sabedoria (porque deve haver ali algum engano cognitivo presente), mas tanto quanto não transborde para ações verbais ou corporais isso não se caracteriza estritamente como uma quebra de sīla. No Direito ocorre algo semelhante: atravessar o sinal vermelho é um delito (esfera de sīla, pois refere-se à conduta em relação às outras pessoas); pensar em atravessar o sinal vermelho não é delito — pertence à esfera do controle mental. E, como se costuma brincar, “o pensamento não paga imposto” — mas paga um imposto kármico: aquilo que você pensa e como você pensa condiciona a cadeia dos demais pensamentos da mente.
Sīla tem uma função de restrição. Mesmo sob a presença do desejo sedento, da irritação ou da ignorância, a disciplina ética impede a ação baseada neles. Lidar com as impurezas ou aflições mentais num nível interno já é função do segundo elemento do treinamento, a meditação (onde se inclui todo tipo de treinamento mental), que se ocupará de enfraquecer suficientemente os elementos prejudiciais de nossa mente para, por fim, a sabedoria, o terceiro elemento do treinamento, crescer e eliminar os impulsos mais enraizados do desejo sedento e da ignorância.
Um exemplo prático desta sequência do Tríplice Treinamento pode ser visto com o lidar com a raiva. A disciplina ética restringe as palavras, gestos e ações que poderiam surgir da raiva. O trabalho meditativo trabalha internamente com nossa reatividade, o impulso de responder imediatamente àquilo que nos irrita com palavras e atos agressivos. Compreendemos que a raiva é uma reação condicionada da mente, fruto de tendências subjacentes de agressividade. Refletimos que alimentá-la só faz crescer tais tendências, e que sua expressão não terá os resultados que imaginamos num sentido definitivo. Ódio gera apenas mais ódio e esse ciclo é interminável. Poderemos trabalhar também com meditações de compaixão ou amorosidade a fim de diminuir suas bases. Finalmente, pelo interesse investigativo prosseguiremos mais profundamente na mente e na natureza da raiva, compreendendo que ela está ligada à ignorância, ou seja, a um modo incorreto, errôneo de ver a realidade. A sabedoria trata de um problema cognitivo, um problema de entendimento. Dessa maneira, disciplina moral, meditação e sabedoria se inter-relacionam, fazendo parte de um mesmo processo.
Apesar do processo ser bastante claro, sua execução não é tão simples. O Cittavagga, um capítulo que trata da ‘mente’ no clássico livro buddhista, o Dhammapada, traz uma série de indicações úteis nesse sentido. “Aqueles que restringem a mente que para longe viaja, que vaga sozinha, que é desprovida de um corpo e jaz dentro da caverna (do coração), se libertam das amarras de Māra”. Māra significa aqui todo tipo de tentação, interna e externa. Na mitologia buddhista personifica o mal, mas também a morte. Podemos dizer que Māra é tudo aquilo que nos mata — em todos os sentidos. O verso traz a mensagem de que não deixar a mente vagar a seu bel prazer, ao contrário de nossas expectativas, é condutivo à liberdade! Isso faz sentido se entendermos a perspectiva buddhista a respeito da mente. A mente não é um quadro branco em que as experiências da vida são pinceladas. A mente já vem carregada de tendências subjacentes — tendências para a cobiça, para a aversão, para a estupidez — e se deixada ‘livre’ passará a ser diretamente sujeita a tais tendências.
Essa concepção representa uma dificuldade para nosso modo contemporâneo de pensar, doutrinados que somos com uma ideia de liberdade de fazer o que se quer, de se envolver com tudo o que se gosta, independentemente do mundo ao redor. O outro, quando não se junta ao nosso desejo e objetivos, torna-se não somente secundário, mas irrelevante. Isso é bem diferente da concepção de espiritualidade das tradições orientais, em que domar a mente é um valor, algo louvável. Diz o Dhammapada: “Domar a mente que é difícil de controlar, que rapidamente se altera, e que se envolve com qualquer coisa que goste, é louvável. Uma mente domada traz felicidade”. Na literatura oriental, como na japonesa e indiana, conseguir se conter, exercer o controle sobre os próprios instintos, é um valor central. E encontraremos essa perspectiva também em muitas formas antigas do pensamento ocidental.
Um verso do Cittavagga diz: “Que a pessoa sábia proteja a mente, tão difícil de discernir, extremamente sutil, que se envolve com qualquer coisa que goste. Uma mente protegida traz felicidade”. A palavra para ‘proteger’ no texto original é rakkhati, que significa proteger no sentido de cuidar. Por vezes usamos ‘cuidar’ sem o sentido explícito de proteger (como quando falamos de autocuidado, cuidar da saúde). Cuidar não quer dizer necessariamente acrescentar algo, mas ‘evitar o que deve ser evitado’, sob pena de se expor a um risco. Então, quais são as circunstâncias, atividades e mesmo pensamentos que nos expõem ao perigo? Quais são as situações mentais, psicológicas e emocionalmente perigosas? Quantas vezes fazemos algo e logo pensamos: “Eu não deveria estar fazendo isso”? É um bom exercício pensar assim: o que, emocionalmente, pode me trazer esta situação em que estou me expondo?
A palavra ‘Buddha’ significa literalmente ‘desperto’. Isso significa que se você não é um buddha, é porque está dormindo — e há diferentes níveis de sonolência, do sono profundo à vigília; todos estão um pouco adormecidos. Num dos versos do Cittavagga, esse processo de ir acordando é descrito também como um processo de ir perdendo o medo. “Não há medo para quem está acordado, cuja mente não se inclina para as falhas e que é sem agitação, e que seguiu para além das ações kâmmicamente benéficas e kâmmicamente prejudiciais”. Se estamos em treinamento, mas notamos que crescemos no medo, alguma coisa está errada. O final desse verso é intrigante: Seguir para além das ações de resultado prejudicial e também das de resultado benéfico. O progresso no caminho pode ser disposto em dois níveis. No começo, evita-se o prejudicial e realiza-se o benéfico. Mas, lá na frente, almejamos ir além de ambos, pois buscar ações pelo seu resultado benéfico ainda é um tipo de prisão. Ainda há interesse próprio. Existe a prisão do mal — o vício — e existe a prisão do bem: a pessoa está tão apegada à virtude de fazer o bem que isso a aprisiona. E isso pode até se tornar prejudicial: tantas vezes na história pessoas bem-intencionadas fizeram coisas terríveis. Daí o ditado: “O caminho para o inferno está pavimentado de boas intenções” — porque fazer o bem, quando não é nutrido pela sabedoria, pode acabar produzindo um mal ainda maior. Assim, no final das contas, o que se busca é um estado para além do bem e do mal.