Regozijando-se com a Bondade

Escola Jardim da Paz
A Escola Jardim da Paz (Garden of Peace School) em Tamil Nadu, Índia, onde a BGR apoia um programa de merenda escolar desde 2017.

Por Ven. Bhikkhu Bodhi

O cerne do ensinamento do Buddha, a estrutura das quatro nobres verdades, começa com dukkha, a verdade do sofrimento. Dukkha é o espinho cravado em nossa carne, o enxame de pernilongos picando nossos braços e pernas, a sombra que nos segue mesmo quando nos banhamos à luz do sol. O sofrimento, no entanto, não é a palavra final que o Buddha nos deixa. É apenas o ponto de partida, destacando a dura verdade de que nossa “casa está em chamas”, de que nossas vidas estão sempre entrelaçadas com dor e desânimo enquanto vagamos pelo deserto do nascimento e da morte repetidos. O Buddha começa com a verdade do sofrimento porque essa é a lição que temos de aprender. Mas sua intenção é nos guiar em direção ao fim do sofrimento, e é isso, a bem-aventurança da libertação, que ele oferece como objetivo final.

O objetivo deve ser alcançado seguindo um caminho precisamente calibrado — um caminho com muitas facetas — e uma qualidade que permeia todo o caminho, do início ao fim, é a alegria. A alegria tende a ser negligenciada nos relatos contemporâneos do buddhismo, que frequentemente retratam o Dhamma como uma disciplina austera de resignação sombria, em vez de um caminho para uma liberdade efervescente. Na realidade, no entanto, caminhar pelo caminho é inerentemente alegre, um processo de avançar na direção de uma extensão aberta, não contaminada pela antiga bagagem da avidez, do ódio e da ilusão. Mas a alegria não apenas empresta seu sabor ao caminho como um efeito colateral incidental. Ela é também um dos fatores centrais da prática, contribuindo para o seu desdobramento sequencial.

Podemos ver o papel crucial que a alegria desempenha na ascensão em direção à libertação em uma série de termos expostos no Upanisa Sutta, um breve discurso no Samyutta Nikāya (SN 12.23). O discurso apresenta a conhecida fórmula da originação dependente, que geralmente termina com o nascimento como condição para a velhice e a morte. Mas, neste sutta, diz-se que o nascimento é a condição — não para a velhice e a morte — mas para o sofrimento (dukkha). O sofrimento então se torna a condição para a fé (saddhā), e a fé inicia uma nova série positiva que ascende através de estágios cada vez mais elevados, culminando na libertação da mente de seus grilhões.

A palavra em pāli saddhā, traduzida aqui como “fé”, não significa uma crença acrítica em doutrinas inverificáveis, mas uma confiança solene nos guias aos quais recorremos como nosso refúgio: confiança no Buddha como nosso mestre, confiança no Dhamma como a verdade libertadora, confiança no curso de prática como o caminho para sair do nosso dilema existencial. De acordo com o sutta, a fé dá origem à alegria. A alegria traz deleite, e do deleite emergem, por sua vez, a tranquilidade, a bem-aventurança, a concentração e a sabedoria. Por fim, da sabedoria vem o desapego, e do desapego, a libertação.

A fé é, portanto, o portal do caminho buddhista, mas, uma vez que a fé tenha surgido, ela deve ser cultivada — fortalecida, consolidada e impulsionada em direção à alegria. É ao nos engajarmos em práticas saudáveis, empreendidas através da fé, que intensificamos a alegria inicial que acompanha o ato de fé e a elevamos ainda mais. As fontes antigas resumem essas práticas salutares como doação, observância dos preceitos e meditação — dāna, sīla e bhāvanā. É importante notar que o sucesso na meditação repousa sobre a prática da doação e da observância dos preceitos, que servem conjuntamente como sua base. Mas a doação e a observância dos preceitos — experienciadas subjetivamente como generosidade e virtude moral — podem se tornar temas de recordação e, assim, objetos de meditação por si mesmas. Como objetos de meditação, eles podem dar origem à alegria e desbloquear o processo que culmina na libertação.

O tema de meditação que diz respeito mais diretamente ao trabalho da Buddhist Global Relief (BGR) — e aos nossos papéis como membros da equipe e apoiadores da BGR — é a recordação da generosidade (cāgānussati). Visto que a missão da BGR é enfrentar os problemas da fome crônica e da desnutrição, ambos frequentemente enraizados na pobreza, na guerra e nas desigualdades sociais, confrontar o sofrimento intrínseco a essas crises pode abater nosso espírito e paralisar nossa vontade. Para combater isso, para nos sustentar no trabalho valente de inspirar os outros, precisamos de mais do que um compromisso teimoso com ideais altruístas. Precisamos ser sustentados pela alegria, nutridos e mantidos pela alegria.

Um meio de gerar tal alegria é a recordação da generosidade. A generosidade se torna uma base para a alegria porque derruba as barreiras que instintivamente erguemos entre nós e os outros. Ordinariamente, sob a influência da avidez e da ilusão, nossas mentes criam um muro de separação entre nós e os outros. Olhamos para as outras pessoas através da janela dessa prisão — a fortaleza do ego — e as vemos como competidores na luta para sobreviver. A vida então se torna um jogo de soma zero no qual ou nós vencemos ou os outros vencem. Essa discórdia, essa batalha para prevalecer, é inevitavelmente acompanhada por ansiedade e estresse, pelo rastro sombrio do dukkha.

A prática da generosidade derruba esse muro de separação e abre novas perspectivas das quais podemos reconhecer nossas conexões íntimas com os outros. A generosidade, assim, inspira bondade e compaixão; ela nos permite nos identificar com aqueles que estão em necessidade e move nossos corações a agir em benefício deles. Através da generosidade, transcendemos a visão estreita e restritiva da mente egocêntrica, escalamos as alturas e adquirimos aquela visão panorâmica que nos inspira a agir para a felicidade e o bem-estar dos outros.

Mas a generosidade deve ser desenvolvida em estágios. Inicialmente, quando sentimos pela primeira vez a inclinação para doar, a disposição inata para o interesse próprio pode intervir e tentar nos convencer de que agir sobre nossos impulsos generosos será prejudicial a nós mesmos. Embora devamos nos recusar a ouvir essas sugestões, também devemos reconhecer que elas contêm um núcleo de verdade. Não podemos começar com grandes atos de total autossacrifício, abandonando completamente tudo em prol dos outros. Na prática da generosidade, a chave para o sucesso é começar com pequenas doações que não sobrecarreguem nossa capacidade de doar. Quando doamos com moderação e, em seguida, refletimos sobre nosso ato de doação, sentiremos uma onda de alegria, enraizada na convicção de que demos um passo decisivo — mesmo que pequeno — em direção à autotranscendência. Isso abre espaço para uma generosidade maior, criando uma disposição mais forte para expandir nossa capacidade de doar cada vez mais abundantemente.

Cada ato de doação encoraja mais doações, até que possamos doar livremente, com as mãos abertas, cheios de felicidade e alegria. Diz-se que um bodhisattva se deleita em doar até mesmo sua vida, corpo, sangue e órgãos, fazendo isso ao longo de incontáveis éons. Essa capacidade não é adquirida da noite para o dia. Ela começa modestamente, com pequenos atos de doação repetidamente praticados até ganharem uma força imparável. É como uma bola de neve que rola montanha abaixo, acumulando cada vez mais neve e, assim, iniciando uma avalanche.

A generosidade é alegre em si mesma, mas, quando praticada a partir da fé, na convicção de que é um degrau em direção à libertação, pode se tornar um tema de recordação. Refletimos sobre nossos atos de doação, não para reforçar nossa autoestima, nem para ganhar elogios e honra de nossos pares, mas para gerar uma alegria salutar. Regozijamo-nos com a realização de que estamos desmantelando a barreira da preocupação consigo mesmo que nos separa dos outros; regozijamo-nos com nossa capacidade de nos identificar com a dor dos outros e de compartilhar nossos recursos. Tal reflexão faz com que uma onda de alegria se eleve de dentro e abre caminho para estágios mais elevados de felicidade. Isso, por sua vez, pode levar à concentração e à compreensão profunda, e, eventualmente, à sabedoria que arranca pela raiz todo o apego.

Podemos gerar alegria salutar não apenas nos regozijando com nossa própria generosidade, mas também nos regozijando com a bondade dos outros, especialmente com sua generosidade. Este é um aspecto de muditā, a alegria altruísta, o antídoto para a inveja e o ressentimento. Com muita frequência, quando testemunhamos os outros realizando ações excepcionalmente boas, podemos ver isso como um golpe em nossa autoestima, com o receio de que eles sejam melhores do que nós. O cultivo de muditā supera essa tendência tóxica. Ela remove a inveja e o ressentimento e nos permite compartilhar da bondade dos outros, regozijando-nos com suas boas ações.

A prática de muditā relaciona-se de maneira bastante íntima com o trabalho da Buddhist Global Relief. Quando tomamos conhecimento da compaixão e generosidade de nossos doadores, quando testemunhamos o serviço abnegado de nossa equipe e membros, podemos fazer uma pausa por um momento e nos regozijar com sua bondade. Transformamos, assim, essa reflexão em um exercício meditativo que se expande por estágios. Começamos gerando alegria na generosidade e compaixão de nossos amigos e colegas. A partir daí, estendemos a alegria de forma mais ampla, daqueles que conhecemos para outros que não conhecemos, mas sobre os quais ouvimos falar, e então para aqueles dos quais nem mesmo ouvimos falar, mas que podemos apenas imaginar. Por fim, no nível mais amplo, podemos nos regozijar com a bondade e a generosidade de todas as pessoas de boa vontade em todo o mundo, mesmo em terras distantes.

Regozijar-se com a bondade dos outros tem um efeito de ressonância: fortalece a alegria em nossos próprios corações, fundamenta nossa vida em uma base de alegria e nos ajuda a espalhar alegria para todos que entram em nossa esfera de influência.

Ven. Bhikkhu Bodhi é o fundador e presidente da Buddhist Global Relief. Publicado em: 24 de setembro de 2026.

Tradução, com permissão, pelo Centro de Estudos Buddhistas Nalanda do original Regozijando-se com a Bondade

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