Amanhecendo em Tuva

Calorosa recepção em Kyzyl

Uma pergunta frequente nos últimos anos tem sido: “Como assim você está indo para um congresso buddhista na Rússia?” De fato, ninguém associa Rússia e buddhismo na mesma frase. Assim como em várias outras áreas, se conhece pouco sobre a Rússia nisso também.

Ainda que a religião majoritária seja o cristianismo ortodoxo, tendo como data inaugural o ano de 988 EC (Era Comum) quando o príncipe Vladimir, o Grande, se converte e ordena o batismo coletivo da população de Kiev no rio Dnieper, ainda assim o território russo atual abriga um grande número de praticantes de diferentes religiões.

Três repúblicas integrantes da Federação Russa têm grandes populações buddhistas; na República de Tuva, o buddhismo é até mesmo majoritário. Já estive nas outras duas, Buriácia (Buryatia) e Calmúquia (Kalmykia), e agora chegou a vez de conhecer Tuva.

O avião saiu de Moscou às 20h30 e chegará em Kyzyl (Кызыл – capital de Tuva) às 5h00. Não muito tempo para dormir… “Ora, são 8 horas e 30 minutos para você dormir no voo, já não seriam suficientes para você?” Seriam, mas não vamos nos esquecer do fuso horário! Na realidade, são apenas 5 horas de voo. Isso significa que meia-noite e trinta já estava amanhecendo lá fora (dava pra ver pela janela do avião), e o que seria a chegada à 1h30 (horário de Moscou), em Kyzyl já seria 5 da manhã. Entenderam a conta? 🤔 Chegando às cinco da manhã será sair do aeroporto, chegar no hotel, tomar o café da manhã para então começar o dia, sendo que as cinco horas de voo não foram de fato aproveitadas para dormir 😵‍💫🥱.

Mas toda a falta de sono e dores no pescoço de uma noite sem dormir desapareceram ao ver a recepção que nos esperava já na pista de pouso.

Voluntárias já estavam com uma placa para o Brasil, e toda uma especial recepção nos levou, acordados, do aeroporto até o hotel. Às delegações dos vários países — junto comigo estavam as delegações da Índia e do Sri Lanka — foram atribuídos voluntários que cuidavam de toda a logística, avisos e tradução necessária durante o congresso.

Kyzyl significa vermelho e é a capital administrativa, cultural e econômica da República de Tuva, no sul da Sibéria, perto das fronteiras com o norte da Mongólia. Ela já teve três nomes desde sua fundação em 1914: Belo­tsarsk (Белоцарск, “Cidade do Czar Branco”), durante o período em que o Império Russo estabeleceu um protetorado sobre a região de Uriankhai; em 1918, passou a chamar-se Khem-Beldyr; e em 1926, recebeu o nome atual, Kyzyl.

Neste dia pudemos visitar o Museu Nacional, o Estádio de Tuva e conhecer a praça onde fica o Teatro Dramático e Musical na qual estavam montadas algumas yurtas. Yurta, ou como se diz em tuvano, ög, öг ou öge, é a moradia tradicional dos povos seminômades de Tuva. Embora a maior parte dos tuvans viva hoje em cidades, vilas e casas permanentes, ainda assim muitas famílias rurais criam ovelhas, cabras, cavalos, iaques, gado e, em algumas áreas, até camelos, deslocando os rebanhos sazonalmente entre pastagens e vivendo em yurtas neste período. Durante o período soviético a sedentarização progrediu, mas a yurta continua sendo um símbolo forte da identidade tuvana. Alguns até podem ter suas casas permanentes, mas passam parte do ano em yurtas.

E faz sentido não morar numa yurta todo o tempo. Foi-me informado aqui que, no inverno, até -40 °C a vida roda normal. Com -41 °C as crianças do primário não vão à aula, mas as do secundário só com -43 °C — elas torcem para chegar nos -43 °C. Um inverno de -30 °C é considerado um inverno ameno 🥶.

Yurtas também estiveram presentes em outros lugares durante nossos dias em Tuva. Apresentações de música, exposição de itens tradicionais de uma yurta, roupas clássicas, tudo dentro de yurtas, acompanhados de chá tuvano (uma curiosa mistura de um chá muito fraco com leite e sal) e bolinhos fritos e biscoitos para os visitantes.

Após um almoço num restaurante típico no formato de yurta, seguimos para o Museu Nacional de Tuva, um mergulho arqueológico e cultura na sociedade tuvana desde a pré-história até aspectos recentes de sua história. Uma das novidades para mim, aprendidas na visita ao museu e nas conversas com nossos guias e professores da conferência foi sobre como essa região foi palco de uma confluência surpreendente de três culturas fortes da antiguidade: os citas, os turcomanos e os mongóis.

Do século IX ao VII (AEC – Antes da Era Comum) há evidências arqueológicas no vale de Uyuk da presença dos citas, uma confederação de tribos nômades e seminômades de origem indo-europeia que nos tempos antigos (entre IX e III AEC) dominaram vastas regiões de estepes desde as fronteiras ocidentais da China até o norte do Mar Negro e a foz do rio Danúbio, na Europa Oriental. Linguisticamente eles tinha algum parentesco com os persas e medos, e uma de suas características marcantes era serem exímios cavaleiros e arqueiros.

A segunda influência foi linguística. Acredita-se que a região sul da Sibéria e das montanhas Altai (onde fica Tuva) possa ter sido o núcleo das línguas túrquicas (turcomanas), antes mesmo desse tronco linguístico ter se espalhado em direção da Anatólia ou do Oriente Médio. Isso é imensamente interessante pois situa Tuva de um modo completamente diferente da outra região buddhista que visitei anteriormente, a Buriácia, que é sua vizinha geográfica. Apesar da proximidade as línguas são completamente diferentes. Entre o século VI e IX EC, Tuva fez parte, inclusive, dos primeiros grandes impérios nômades turcomanos. Enquanto o buriato (falado na Buriácia) pertence à família mongólica, a língua tuviana pertence ao ramo túrquico siberiano (o turco falado atualmente na Turquia é um parente distante). Enquanto os ancestrais dos modernos turcos migraram para o sudoeste, a língua tuviana permaneceu no habitat siberiano original.

Por fim, a última influência veio da Mongólia, que forneceu a Tuva a religião buddhista, a política e as estruturas sociais das dinastias mongóis (bem como da dinastia manchu de Qing). A partir do século XIII, Jochi, filho mais velho de Genghis Khan, conquistou a região, que foi então assimilada às estruturas administrativas e militares mongóis. Cerca de 30% do vocabulário tuviano tem influência direta da língua mongol.

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