A mente como maior inimiga e maior aliada

Um dos objetivos da meditação é a proteção da mente

No Cittavagga, um capítulo do Dhammapada, é dito: “Qualquer dano que um inimigo possa fazer a um inimigo, ou alguém que odeia possa fazer a outro que também odeia, uma mente mal-dirigida pode infringir um dano maior sobre uma pessoa. Nem mãe, nem pai, nem qualquer outro parente pode fazer tanto bem quanto uma mente bem dirigida”.

Um dos objetivos da meditação é a proteção da mente. Podemos pensar em três níveis de proteção: o primeiro é sīla, a disciplina nas ações corporais e verbais; o segundo é samādhi, a disciplina mental adquirida pelas ações mentais direcionadas a estados benéficos de consciência; o terceiro, e mais importante, é paññā, a sabedoria. A sabedoria é que, de modo derradeiro, impedirá alguém de cometer ações prejudiciais, internas e externas, porque a pessoa entendeu de fato a inutilidade ou a falta de sentido das ações prejudiciais.

A meditação buddhista tem dois objetivos: samatha e vipassanā. O primeiro é o acalmamento ou aquietamento da mente. O outro é aprender a olhar, ver as coisas como elas são. Tudo o que fazemos no buddhismo trabalha com um, com outro, ou com os dois em mente. O acalmamento é o trabalho inicial necessário. Uma mente agitada não consegue ver; não tem como sair da confusão. Se estivermos com alguém sofrendo de uma crise de pânico, a primeira coisa a fazer é tentar acalmá-la — de nada adianta dizer “isso não é verdade”: a pessoa em pânico não consegue ver a realidade de uma situação. Então aplicamos métodos de aquietamento: pedimos que respire, conte até dez, foque em uma parte do corpo, coisas assim. A mente estando um pouco mais quieta, o trabalho seguinte é aprender a olhar, ver as coisas de forma mais nítida. Também na meditação começamos, em geral, com samatha e seguimos para vipassanā — mas isso é apenas um modelo genérico e, no final, estaremos praticando ambos ao mesmo tempo.

Acalmar e ver são tarefas necessárias para o cultivo mental, impedindo que a mente se torne nossa pior inimiga. Cada tradição espiritual terá formas diferentes de definir a sabedoria e seu objeto, mas sempre haverá a dimensão de que, no final, você deverá compreender algo da forma mais profunda possível.

Ao entrar em qualquer tradição espiritual — como buddhismo, daoísmo, hinduísmo ou cristianismo —, as técnicas de instrução iniciais estão ligadas ao aquietamento da mente: no cristianismo podemos encontrar o rosário — contar as contas fazendo uma oração a cada volta é uma técnica mântrica de aquietamento e concentração; o canto gregoriano e a música são tranquilizantes; no islamismo, a dança dos dervixes, por exemplo, é samatha, assim como a recitação do dikr; no hinduísmo teremos os bhajans, os kirtans, os cânticos e músicas devocionais que harmonizam e fazem a agitação assentar. Praticar āsanas com um bom professor também é samatha — equilibrar o prāna e baixar a agitação.

Nos Yoga Sūtras de Patanjali temos logo de início a definição do objetivo do yoga como o acalmamento das flutuações da mente (citta vṛtti nirodhaḥ) — vṛtti são as flutuações, as agitações de citta, a mente. Notemos a estrutura da aṣṭāṅga yoga, que encontra um paralelo no buddhismo: ela começa com yama e niyama (o equivalente de sīla, enquanto restrições e ações virtuosas), passa por pratyāhāra (o controle dos sentidos, já possível quando sīla está estabelecida) e prāṇāyāma (o controle respiratório, que reforça a dimensão do aquietamento); e os três fatores finais — dhāraṇā, dhyāna e samādhi — que correspondem à disciplina mental e à visão das coisas como elas são.

Nenhuma tradição religiosa ou espiritual de valor começa dizendo “primeiro vamos agitar tudo, vamos ficar tensos, preocupados, vamos pular e gritar”. Nenhuma também almeja levar seus praticantes e ficarem confusos, estupefatos e muito menos estúpidos. Não numa tradição que tenha valor. Quando o Buddha diz: “Nada observo que possa ser tão imensamente condutor ao dano quanto uma mente não desenvolvida, não cultivada. Uma mente não desenvolvida, não cultivada, é imensamente condutora ao dano”, isso aponta o quão prejudicial pode ser quando tendências de avidez, aversão e confusão mental são deixadas sem qualquer restrição. A mente não treinada é agitada, móvel, e facilmente tomada por impurezas ou aflições mentais. A meditação tem como objetivo lidar com isso.

Na psicologia buddhista, faz-se uma conexão importante: a mente impura leva à agitação e à confusão mental. E a agitação é considerada uma constante das tendências prejudiciais. A maioria das tendências prejudiciais é ocasional — presente às vezes, ausente outras —, mas dois fatores mentais estão sempre presentes em qualquer estado prejudicial: a ignorância (avijjā) e a agitação (uddhacca). Isso realça a grande importância de trabalhar com o aquietamento: sempre existe um elemento de agitação nos estados prejudiciais. E se é verdade que a agitação tem como causa imediata a ignorância, então toda agitação (estresse, reatividade, etc.) tem a ver com algo que não compreendemos direito, algo que não estamos vendo ou estamos tomando de forma errada. Ficamos agitados por causa de uma realidade mal compreendida.

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